segunda-feira, 25 de março de 2013

El País: Espanha já tem 3 milhões em pobreza extrema; estudo fala em "década perdida"



A crise e os cortes sociais estão atingindo com tal força a sociedade espanhola que as rendas despencaram aos níveis de dez anos atrás. Já existem 3 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, a antessala da exclusão social. E o poder aquisitivo, 18.500 euros em média por espanhol em 2012, é inferior ao de 2001. Os detalhes desse retrocesso foram apresentados na quarta-feira (20) pela instituição Cáritas, em um informe que fala em uma década perdida.

O cenário desenhado pelo estudo "Desigualdade e Direitos Sociais - Análise e Perspectivas 2013", elaborado pela Fundação Foessa (Fomento de Estudos Sociais e Sociologia Aplicada) a partir de diferentes fontes oficiais, é de uma situação de dureza sem precedentes recentes, segundo a entidade humanitária. O declínio da quantidade de dinheiro de que as famílias dispõem obedece ao efeito combinado da queda das rendas (4%) e do aumento de preços (10%). E se traduz em um empobrecimento que "avança em velocidade", acrescenta Carlos Susías, da Rede Contra a Pobreza e a Exclusão Social Espanha. Especialmente entre os menos favorecidos. "É uma verdadeira barbaridade a evolução dos últimos anos."

O retrocesso das rendas afeta de forma especialmente cruel as rendas mais baixas, uma categoria que não para de recrutar cidadãos: 21,8% dos espanhóis vivem em pobreza relativa --em 2008 o índice estava em 19,6%. São 10 milhões de pessoas. Esse índice (que é definido pela Eurostat) corresponde a 60% da mediana da renda nacional. Isto é, uma pessoa é pobre se vive com menos de 7.300 euros anuais. Para cada adulto que se soma à unidade familiar, seria preciso incluir a metade dessa quantia e 30% por filho. Dessa forma, um casal com dois filhos está abaixo do limite de pobreza se tiver menos de 15.330 euros para passar um ano.

A situação de pobreza severa (30% da renda mediana ou 3.650 euros anuais) também cresce e já alcança 6,4% da população --4% em 2008. Ao todo, cerca de 3 milhões. Para José Manuel Ramírez, presidente da Associação de Diretores e Gerentes de Serviços Sociais, esse último dado é especialmente preocupante. A pobreza extrema é o degrau que antecede a exclusão social. "Recuperar essas pessoas exige em média dez anos de intensa intervenção social, e isso representa um enorme custo humano e de recursos", acrescenta esse especialista em serviços sociais.

Há dados sobre os quais o relatório dá especial atenção. Por exemplo, o que indica que 38% das famílias monoparentais com um filho ou mais vivem abaixo do limite de pobreza e 11,7% de pobreza extrema, segundo a Pesquisa de Condições de Vida do Instituto Nacional de Estatísticas de 2011. Ou que a porcentagem seja semelhante (48% abaixo do limite de pobreza) no caso de famílias com dois adultos e três filhos a seu encargo. "Não se deve esquecer que a pobreza é o acelerador que leva à exclusão", insiste Susías, "e que esta é muito mais complexa de combater".

Até um ano atrás, os relatórios Foessa, destinados a dissecar a realidade social do país, não tinham periodicidade fixa. Depois de 2008, foi elaborado o de 2011. Entretanto, dada "a velocidade da evolução" da crise, seus responsáveis decidiram não deixar passar mais de 12 meses antes de voltar a sentir o pulso da situação, explicou o secretário-geral da Cáritas, Sebastián Mora, durante sua apresentação. "Se o relatório anterior revelava que a pobreza na Espanha era mais intensa, mais extensa e mais crônica, hoje se pode dizer que esse processo de empobrecimento se aprofundou em extensão", acrescentou Mora.

Uma das consequências da crise e do desemprego é o intenso aumento da miséria. Outra, "o aumento sem precedentes da desigualdade de sua distribuição" na sociedade. Desde 2006, a receita das pessoas com menos recursos caiu 5% ano após ano, enquanto nas famílias mais abastadas a tendência foi inversa. O resultado disso é que, desde o início do naufrágio econômico, em 2007, a diferença entre os mais ricos (os 20% de pessoas com maiores rendas) e os mais pobres (os 20% com menos receitas) aumentou 30%.

Essa é a sombria fotografia da crise hoje. Mas o futuro, uma vez que vão desaparecendo as nuvens carregadas e a atividade econômica ressurja, poderia ser igualmente ruim ou mesmo pior para os cidadãos mais desprotegidos. A Cáritas advertiu que a contundência e a multiplicação dos cortes sociais estão assentando as bases para que o impacto da crise se torne crônico entre os menos favorecidos. E que os "ajustes em bens básicos, a redução de benefícios sociais e a exclusão de grupos de cidadãos de serviços elementares" poderão se transformar em um obstáculo insolúvel na hora de tirar da pobreza a legião de cidadãos que ficaram presos nela.

"Os cortes nos serviços públicos de bem-estar podem representar uma ruptura definitiva para os mais pobres", insiste o relatório. "Corremos o risco de abandonar a sua sorte as pessoas mais desprotegidas", concluiu Sebastián Mora.


Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Nenhum comentário:

Postar um comentário