quinta-feira, 26 de julho de 2012

Análise: EUA e China precisam reconhecer interdependência para combater "efeito aquário" na crise econômica global

Li Congjun


Nos últimos anos circula na China uma piada popular sobre duas mulheres idosas, uma chinesa e a outra norte-americana, que se conhecem no céu.

“Pouco antes de morrer”, diz a chinesa, “eu tinha finalmente conseguido comprar uma casa”.
A norte-americana retruca: “Pouco antes de morrer, eu tinha finalmente conseguido quitar a minha hipoteca”.

Embora se baseie nos estereótipos do norte-americano perdulário e do chinês muquirana, a piada ajuda a explicar como foi que a economia mundial perdeu o rumo e o equilíbrio.

Duas dimensões desta crise fazem com que ela seja diferente de crises econômicas anteriores e explicam a sua tenacidade. A primeira é o paradoxo do crédito, que é simultaneamente dinâmico e desestabilizante. A expansão do domínio das finanças globais abriu as portas para a acumulação de capital e a abundância material mais rápidas, mas ao mesmo tempo ela plantou as sementes da crise. Nos Estados Unidos, políticas monetárias frouxas e uma engenharia financeira esotérica proporcionaram aos consumidores o acesso a produtos de luxo valiosos como casas e carros e mais férias, ainda que estes indivíduos não dispusessem de poupança.


Um excesso de crédito nos países ricos resultou em um excesso de produção em países emergentes e voltados para as exportações, como a China e o Brasil. Esses desequilíbrios tiveram efeitos negativos dos dois lados. No Ocidente, a atividade manufatureira está em queda há décadas, enquanto as indústrias migram para os países em desenvolvimento, onde a mão de obra, os equipamentos e o capital são mais baratos. Além do mais, a classe média encolheu, já que os lucros derivados de uma economia baseada em transações financeiras fluíram para os bolsos dos magnatas, que controlam as alavancas do crédito.

Nas economias emergentes, a urbanização e a industrialização tiraram centenas de milhões de pessoas do estado pobreza, mas provocaram também sérios danos ao meio ambiente.

A segunda dimensão da crise é a sua natureza interconectada. O mundo não é plano --ele poderia ser mais apropriadamente comparado a um aquário. A globalização explica por que a derrocada de um peixe pequeno como a Grécia, que representa apenas 2,3% do produto econômico da Europa, ameaçou liquidar o continente inteiro.

E ela também explica os contratempos enfrentados pelo criador de gansos que eu conhecei em uma região remota e montanhosa da província de Anhui, na China central. Antes da crise, um ganso podia ser vendido por cerca de 13 yuans (aproximadamente US$ 2), mas após a crise o mesmo ganso passou a valer menos de sete yuans. O filho do criador de gansos, um trabalhador migrante, foi demitido de uma fábrica após o cancelamento de várias encomendas do exterior.

Nas décadas de setenta e oitenta, países como a China e a Índia começaram a transformar as suas economias, enquanto a tecnologia da informação revolucionava a produção e o marketing. Mas o boom global resultante, com crescimento rápido e baixa inflação, não pode ser reproduzido. A economia mundial não descobriu uma nova fonte de impulsão desde que a bolha da Internet estourou em 2000. As instituições financeiras, os governos e os consumidores passaram a tentar obter a prosperidade por meio de operações de empréstimos descuidadas, em sua maioria referentes ao setor imobiliário. Agora, os custos crescentes da mão de obra e dos recursos, a pressão inflacionária e as grandes dívidas soberanas fizeram com que as alavancas das políticas fiscais e monetárias se tornassem menos efetivas.

O que pode ser feito?

Primeiramente, não se pode esperar que o neoliberalismo --privatização, desregulamentação e livre comércio --ressuscite o crescimento econômico. O paradoxo do crédito só pode ser definido de forma muito estreita como sendo uma crise financeira. Ele é uma crise de confiança, que nos convoca a abandonar uma economia centrada no capital e a adotar uma outra perspectiva, centrada no ser humano. Não se pode esperar que o capital se autofiscalize.

Para impedir que ele tome o futuro da humanidade como refém, os governos precisam rejeitar as atitudes baseadas no laissez-faire. A “mão visível” do governo é necessária para gerenciar os mercados, reformular os sistemas regulamentadores e conter comportamentos temerários. Os governos precisam encorajar as empresas privadas a investir na “economia real”, a promover inovações tecnológicas e a criação de empregos, em vez de se engajarem na especulação e nas operações que visam o lucro fácil.
Segundo, as maiores economias do mundo --os Estados Unidos, a China e a União Europeia --precisam aprimorar a coordenação de políticas macroeconômicas, bem como a regulamentação e o comércio, e resistir à tentação de recorrer ao protecionismo.

Terceiro, é preciso restaurar o equilíbrio entre o setor financeiro e a economia real, entre a demanda interna e externa, e entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento. A China tomou iniciativas no sentido de encorajar o consumo doméstico, em vez de se basear somente nas exportações.

A Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial foram seguidas de revoluções nos setores de aeronáutica, energia nuclear e exploração espacial. A crise do petróleo da década de setenta foi seguida de uma revolução da tecnologia de informação. Somente mais inovação em ciência e tecnologia poderá promover produtividade e tirar o mundo da crise atual. A China investiu 861 bilhões de yuans (quase US$ 131 bilhões) em 2011 em ciência e tecnologia, o que representa uma aumento de 21,9% em relação ao ano anterior.

Embora seja fundamental que os Estados Unidos e a China, as duas maiores economias do mundo, estimulem o seu próprio desenvolvimento, esses países precisam também fortalecer a cooperação mútua nos setores de comércio, investimentos, finanças, infraestrutura, tecnologia e outros. As duas economias tornaram-se altamente interdependentes. No ano passado, o comércio bilateral entre os Estados Unidos e a China chegou a US$ 450 bilhões, e as visitas mútuas superaram a marca dos três milhões.

É difícil evitar atritos, mas o que importa para os dois lados é administrar as suas diferenças por meio da coordenação baseada na igualdade e no entendimento mútuo. Somente se reconhecermos a nossa extrema interdependência nós faremos com que o efeito aquário ajude a humanidade, ao invés de conspirar contra ela.

* Li Congjunm é presidente a agência de notícias “Xinhua”, a agência oficial de imprensa da República Popular da China, cuja sede fica em Pequim

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