quinta-feira, 10 de maio de 2012

Trader: “Eu não sou pago para estar certo, sou pago para acertar”

Um bom artigo. Trouxe do blog do professor de economia da Unicamp Fernando Nogueira Costa, clique aqui para acessar o blog.

Um trader brasileiro se apresentou: “Eu ‘trado’ dólar o dia inteiro aqui como você pode ver”, diz, acenando para o telefone sem fio em cima da mesa, que fica no viva-voz e de onde se ouve a operadora de uma corretora “cantando” a evolução dos contratos de dólar futuro. “Tradar” (fala-se treidar) é um verbo inventado pelos operadores de mercado brasileiros e conjugado por eles à exaustão. Deriva da palavra em inglês “trade“, no sentido de fazer uma operação, comprar e vender.
Por exemplo, um novo “piso” para a taxa de juros vai depender do comportamento do quadro externo, da atividade local e da inflação. Por ora, diz otrader, esses vetores são baixistas para a Selic. Para um operador, pouco importa, no momento atual, que os modelos do mercado e do Banco Central do Brasil estejam apontando inflação maior em 2013. Pouco importa que essa queda nos contratos futuros pode ser revertida ainda em 2012 se as previsões desses modelos se confirmarem. O momento é de “tirar mais umas fichas” desse fechamento (queda) das taxas futuras. “Eu não sou pago para estar certo, sou pago para acertar“, diz um tesoureiro, resumindo bem a questão.
Daytrade é a expressão utilizada para negócios financeiros realizados no mercado no mesmo dia, como compra e venda de ativos. O homebroker, investidor que utiliza serviços de negociação on-line, em vez de comprar e manter os investimentos, durante prazo suficiente para realização de lucro com segurança, tende a se tornar daytrader.
 Ele costuma negociar mais ativamente, incorrendo em perdas (ou corrosão de ganhos) sob a forma de custos de transação (inclusive tributação do curto prazo). Na euforia, acaba até por abandonar seu emprego  para se dedicar a essa atividade em tempo integral.
A força da publicidade em torno do daytrading sobre a mente vulnerável faz com que aquela pessoa que não adere a esta modalidade se sinta extremamente perdedora. O alarde dos incríveis ganhos proporcionados pelo daytrading – e não das perdas – provoca o framing (enquadramento ou dependência da forma) com a fantasia de que se pode realizar, fácil e imediatamente, os desejos.
 Em Finanças Comportamentais, este fenômeno psicológico é conhecido como a
heurística da disponibilidade: o poder que “dados vividos” (eventuais experiências pessoais bem sucedidas de outros) possuem sobre esse tipo de reação.
 Por exemplo, Vanessa Adachi (Valor, 03/05/12) apresenta o caso do Claudinho, como é chamado o trader. “O carro-chefe aqui é o dólar”, vai logo dizendo Cláudio Coppola Di Todaro, pouco depois de entrar na sala de reunião do novíssimo escritório de sua RC Gestão de Recursos.  Ele diz isso porque sabe que desde agosto de 2011 seu nome e seu fundo de investimento são alvos de atenção e comentários no mercado financeiro por causa de altos ganhos com juros.
 Dois fundos exclusivos de pessoa física passaram a ser observados de perto desde que fizeram muito dinheiro numa única tacada com a virada da política monetária promovida pelo Banco Central em agosto do ano passado: o R&C FIM, gerido por Claudinho, e o Bintang, de Marcelo Augusto Lustosa de Souza, o Batata (ver reportagem publicada pelo Valor em 30 de abril). Ambos apostaram que o BC cortaria os juros em 0,5 ponto percentual naquele 31 de agosto. A autoridade monetária vinha num ciclo de aperto desde abril, e uma pequena parte do mercado começou a acreditar em corte de 0,25 ponto. Mas quase ninguém teve estômago para colocar as fichas em algo maior.
 O tamanho do acerto fez com que o R&C e o Bintang ganhassem seguidores no mercado, ávidos por pegar carona em seu desempenho. O R&C FIM deu um salto de 35,8% no dia seguinte àquela reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), foram R$ 7 milhões ganhos num único dia.
 A RC Gestão de Recursos é a responsável por quatro entre os dez fundos que mais acertaram os resultados do Copom de agosto para cá, segundo aponta levantamento feito pelo economista Marcelo D’Agosto, do blog O Consultor Financeiro, do Valor, com base em dados da Economática e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) (ver quadro nesta página).
 A RC é 90% de Claudinho e os outros 10% são de seu sócio Ricardo Carneiro Monteiro, o “r” da sigla. O fundo R&C FIM – assim como o Bintang – só tem dinheiro do seu gestor, diz Cláudio Coppola. E ele explica que os demais fundos da gestora são espelho do R&C FIM, embora com doses menores de risco, e por isso todos andam juntos. “Criei o R&C Hedge para alguns amigos do mercado. E o R&C Plus também é fechado para poucos cotistas. Em 2011 ficamos bem cotados [em termos de rendimento], muita gente ligava e decidi criar um fundo aberto mesmo, para terceiros, que é o R&C Top”, conta.
 O R&C FIM opera com doses cavalares de alavancagem, de quase dez vezes o seu patrimônio. Ele explica que para R$ 100 mil em patrimônio ele chega a fazer posições de R$ 800 mil, não todo o tempo, mas quando enxerga uma oportunidade de ganho. “Esse fundo pode perder até 75% do patrimônio”, diz Coppola. O Hedge pode perder 50% e ele diz ter explicado aos cotistas do Top que eles podem perder entre 25% a 30% do patrimônio.
 Embora tenha feito carreira como operador de juros, Coppola contabiliza que55% dos ganhos acumulados por seu fundo desde 2005 vieram do mercado de câmbio. Outros 20% vieram de bolsa e apenas 25% foram feitos no mercado de juros. “Operar no mercado de juros futuros é muito caro e é um mercado com pouca volatilidade, então eu aprendi a operar câmbio“, diz. (…)
E onde entra o juro? “Juro eu estou sempre olhando, mas eu procuro uma oportunidade. Quando acho que o Copom vai ter alguma oportunidade, eu aposto”, explica. “E quando quero operar taxa de juros, eu opero opção de taxa, porque posso alavancar.”
 Foi assim em agosto do ano passado, segundo conta. “O Mantega [Guido Mantega, ministro da Fazenda] com todas as letras deu a ideia de que queria baixar a taxa de juros. Dez dias antes do Copom ele começou a falar que a economia estava desacelerando e que teria um problema grave com Europa. O Mantega sempre é baixista de juros e, até aí, normal”, narra ele. “Quando ele disse que o Brasil ia viver nova fase, de novo mix de política monetária com fiscal, eu pensei comigo: ele vai querer flexibilizar a política monetária num cenário em que pode ter ruptura de Grécia mais à frente.” Daí para frente, Coppola diz que começou a comprar uma opção que embutia 0,25 ponto de corte. “Mas três dias antes do Copom, o Mantega anunciou pacote fiscal de R$ 50 bilhões e na minha cabeça fechou [o raciocínio].” Aquela opção de 0,25 deixou de oferecer tanto espaço para ganho, conforme parte do mercado passou a acreditar nesse corte moderado da Selic. “Apareceu, então, uma opção de juro com corte de 0,50. E ela estava pagando risco retorno de um para oito. Se perdesse, eu perdia um. Se eu ganhasse, ganhava oito. E foi por isso que o fundo ganhou tanto”, justifica. “Sabe por que ficou marcado? Porque eu fui um dos únicos que comprou essa opção de 0,50 ponto. E na véspera do Copom eu ainda comprei mais.”
 O grande ganho pós-Copom do R&C FIM veio em setembro. Claudinho diz que turbinou os efeitos da decisão de política monetária apostando também que os juros mais baixos fariam o dólar subir. “Virei [o mês] comprado em dólar.” A cota do fundo subiu 95,67% em setembro. “Mas em outubro devolvi metade do que ganhei em setembro”, pontua o investidor. De fato, foi a vez de a cota ter desvalorização de 41,64%. Ele diz que continuou comprado em dólar para outubro e, então, errou feio a aposta.
 Claudinho tem 44 anos e está no mercado de juros desde os 20. Começou como “broker” na corretora Liquidez, depois passou pela Renascença e pela Correção. Em 1994, a Correção comprou o Banco Sistema e ele passou para a tesouraria. O Sistema virou BCN, que depois foi comprado pelo Bradesco, onde Coppola ficou por um ano e meio. Por fim, seu último emprego foi no americano Chase. “Em 2001 eu já tinha passado por várias crises – de México, Rússia, Ásia e a desvalorização do real – e resolvi tentar algo sozinho, porque o mercado estava difícil, e sempre gostei de operar”, relata. Ficou anos operando como pessoa física, até constituir o fundo em 2005, por conta de vantagens tributárias.
 Embora tenha ganho notoriedade ao mesmo tempo que o gestor do Bintang, que mora no Rio de Janeiro, Claudinho diz que não o conhece bem. Conta que foi apresentado a Marcelo Lustosa por um chefe seu, há muitos anos, numa viagem ao Rio, mas que não mantêm contato.
Se tem muito apetite por risco em seus fundos, Claudinho diz que gosta de equilibrar a agressividade comprando imóveis com o lucro que aufere no mercado financeiro. De fato, uma rápida pesquisa no site de buscas Google mostra que,além do apartamento na região da nobre avenida Cidade Jardim, em São Paulo, onde vive, ele tem imóveis no balneário de Riviera de São Lourenço, em Araçoiaba da Serra, em Miami e em Nova York. Aliás, ele ganhou notoriedade indesejada ao dar uma entrevista ao “New York Times” no ano passado falando dos investimentos em imóveis nos Estados Unidos, onde costuma passar alguns meses do ano, “tradando” normalmente. A reportagem, que ele achou que ficaria restrita a leitores americanos, foi traduzida no Brasil e também reproduzida em inglês por inúmeros sites.
Depois de ter virado uma espécie de oráculo involuntário do mercado, Claudinho agora acha que o dólar irá para lá de R$ 2,00, porque o “governo quer dar mais câmbio para a indústria”. E o juro? “Esse câmbio vai acabar tendo algum impacto em inflação, vai mudar os preços relativos. E é por isso que acho que tem limite para a queda dos juros.”

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