quarta-feira, 9 de maio de 2012

PAUL KRUGMAN: Os Estados Unidos estão desperdiçando as mentes de toda uma geração



Na Espanha, a taxa de desemprego entre os trabalhadores com menos de 25 anos é de mais de 50%. Na Irlanda, quase um terço dos jovens está desempregado. Aqui nos Estados Unidos, o desemprego entre os jovens é de “apenas” 16,5%, que ainda assim é terrível --mas as coisas poderiam estar piores.
 
E, com certeza, muitos políticos estão fazendo tudo o que podem para garantir que as coisas realmente piorem. Nós estamos ouvindo muito sobre a guerra contra as mulheres, que é real. Mas também há a guerra contra os jovens, que é tão real quanto, apesar de mais bem disfarçada. E está causando um mal imenso, não apenas aos jovens, mas também ao futuro do país.
 
Vamos começar pelos conselhos dados por Mitt Romney aos estudantes universitários durante uma aparição de campanha na semana passada. Após condenar o “divisionismo” do presidente Barack Obama, o candidato disse à sua plateia: “Tente, vá em frente, corra o risco, faça um curso superior, tome dinheiro emprestado de seus pais se for preciso, abra um negócio”.
 
A primeira coisa que é possível notar aqui é, claro, o toque Romney --a distinta falta de empatia com aqueles que não nasceram em famílias ricas, que não podem contar com o "Banco do Papai e da Mamãe" para financiar suas ambições. Mas o restante do comentário é igualmente ruim ao seu próprio modo.
 
Quero dizer, “faça um curso superior”? E pagá-lo como? O custo do ensino em faculdades e universidades públicas subiu, em parte graças às altas reduções de ajuda dos Estados. Romney não está propondo nada que consertaria isso; ele é, entretanto, um forte defensor do plano orçamentário Ryan, que cortaria drasticamente a ajuda federal aos estudantes, fazendo com que aproximadamente 1 milhão de alunos percam suas bolsas de estudo Pell Grant.
 
Então como exatamente os jovens de famílias sem recursos devem fazer um curso superior? Em março, Romney forneceu a resposta: encontre uma faculdade que “tenha um preço um pouco mais baixo onde você possa receber uma boa educação”. Boa sorte com isso. Mas eu acho que é divisor apontar que as prescrições de Romney são inúteis para os americanos que não nasceram com suas vantagens.
 
Mas há uma questão maior: mesmo se os estudantes conseguirem, de algum modo, cursar uma faculdade, o que fazem com frequência contraindo uma dívida enorme, eles se formarão em uma economia que não parece querê-los.
 
Você provavelmente já ouviu sobre como trabalhadores com ensino superior estão se saindo melhor do que aqueles com apenas o ensino médio, o que é verdade. Mas a história é bem menos encorajadora se você se concentrar não nos americanos de meia-idade com diplomas, mas nos recém-formados. O desemprego entre os recém-formados aumentou; assim como o trabalho de meio expediente, presumivelmente refletindo a incapacidade dos recém-formados de encontrar empregos de período integral. Talvez mais importante, a renda caiu mesmo entre aqueles que estão trabalhando em período integral --um sinal de que muitos foram forçados a aceitar empregos que não fazem uso do que aprenderam.
 
As pessoas com ensino superior, então, estão levando um gancho no queixo graças à economia ruim. E pesquisas nos dizem que o preço não é temporário: os estudantes que se formam em uma economia ruim nunca recuperam o terreno perdido. Em vez disso, a renda deles permanecerá deprimida por toda a vida.
 
O que os jovens precisam, acima de tudo, é de um mercado de trabalho melhor. Pessoas como Romney alegam ter a receita para a criação de empregos: redução dos impostos sobre as corporações e os ricos, corte de gastos em serviços públicos e em atendimento aos pobres. Mas agora dispomos de evidência abundante de como essas políticas funcionam de fato em uma economia deprimida --e elas claramente destroem empregos em vez de criá-los.
 
Pois ao olhar para a devastação econômica na Europa, tenha em mente que alguns dos países que estão experimentando a pior devastação são aqueles que fizeram tudo o que os conservadores americanos dizem que deveríamos fazer aqui. Há não muito tempo, os conservadores aplaudiam as políticas econômicas da Irlanda, especialmente seus baixos impostos sobre as empresas; a Fundação Heritage costumava dar a ela notas mais altas por “liberdade econômica” do que para qualquer outro país ocidental. Quando as coisas deram errado, a Irlanda continuou recebendo elogios, desta vez por seus duros cortes de gastos, que deveriam inspirar confiança e levar a uma rápida recuperação.
 
E agora, como eu disse, quase um terço dos jovens da Irlanda não consegue encontrar emprego.
 
O que deveríamos fazer para ajudar os jovens americanos? Basicamente, o oposto do que Romney e seus amigos querem. Nós devemos ampliar a ajuda aos estudantes, não cortá-la. E deveríamos reverter as políticas de austeridade que estão freando a economia americana --os cortes sem precedentes nas esferas locais e estaduais, que têm atingido de modo especialmente duro a educação.
 
Sim, essa reversão de políticas custaria dinheiro. Mas não gastar esse dinheiro é tolo e míope mesmo em termos puramente fiscais. Lembre-se, os jovens não são apenas o futuro dos Estados Unidos; eles também são os futuros contribuintes.
 
Uma mente é algo terrível de ser desperdiçado; desperdiçar as mentes de toda uma geração é ainda mais terrível. Vamos parar de fazer isso.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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