terça-feira, 3 de abril de 2012

Luiz Gonzaga Belluzzo: A festa tem hora para acabar - Carta Capital

Mas o Brasil continua a ser o último peru de Natal disponível

Trânscorridos três anos e picos desde a quebra do Lehman Brothers, episódio que disseminou o pânico nos mercados financeiros globais, o Banco Central Europeu oferece uma linha de crédito de 529 bilhões de euros a taxas de compadrio para instigar os bancos privados a rolar a dívida soberana dos periféricos em condições mais favoráveis. As medidas de “facilitação quantitativa” (quantitative easing) adotadas pelo Federal Reserve, Banco da Inglaterra e Banco Central Europeu já somam mais de 7 trilhões de dólares. Não fizeram pouco: além de construir um piso para a deflação de ativos, as intervenções apagaram as culpas do espírito dos pecadores que, com o apoio do governo, lograram faturar com as consequências de suas insanidades.

O dólar americano disputa uma corrida com o euro, ambos na busca desesperada de desvalorizações competitivas, enquanto os chineses se agarram ao yuan subvalorizado. O dólar e o euro declinam sob o peso das injeções de liquidez inoculadas pelos respectivos bancos centrais e recuam diante das sovinas taxas de juro pagas pelos tesouros dos Estados Unidos e da Alemanha.
Inquietos com a trajetória dos mercados ruminantes do mundo desenvolvido, os investidores da ciranda global cuidam de rearranjar suas carteiras. Encontram repouso e refrigério para seus tormentos na apetitosa arbitragem com os juros brasileiros, cadentes, mas ainda suculentos.
O real valoriza-se sobranceiro diante do dólar e de outras moedas. Com essas e outras, desde meados dos anos 1990, a indústria brasileira se debilita. Depois da crise financeira, o declínio se acelerou, coadjuvado pelo empenho de chineses, europeus e americanos em derramar suas produções excedentes nos mercados desprotegidos. Em janeiro de 2009, o governo chinês ampliou as compensações de impostos para “premiar” as exportações de mais de 500 produtos manufaturados. O yuan moveu-se muito pouco nos três anos, ancorado nas intervenções do People”s Bank of China, que não só compra agressivamente divisas como interfere duramente nas posições compradas e vendidas em moeda estrangeira dos bancos chineses. A política de defesa do yuan, a oferta ilimitada de mão de obra barata e as políticas fiscais e tributárias de estímulo às exportações se juntam para esfolar o que resta das indústrias nos concorrentes incautos e desavisados.
A senhora Angela Merkel acusa o Brasil de tomar medidas protecionistas unilaterais. Os súcubos locais, os mesmos que se curvaram às malcriações do moralmente enigmático Jérôme Valke, repercutem a resposta de Merkel à interpelação da presidenta Dilma Rousseff. Suas almas serviçais retomam em tedioso realejo as imprecações contra a possibilidade de intervenções mais incisivas do Banco Central no mercado de câmbio. Até recentemente, a controvérsia sobre o câmbio costumava terminar com a vitória da turma da bufunfa. São aqueles que se refestelam na arbitragem financeira e engordam seus cabedais sob o patrocínio das ignorâncias, inconsistências e petulâncias dos rezadores de catecismos monetários, cujas certezas hoje se desintegram ao som dos estridentes deboches da crise financeira.
No Brasil, a decadência das exportações e a invasão de importações vai dos têxteis aos calçados, dos automóveis aos ônibus da internacionalizada Marcopolo, para finalmente culminar na degradação do balanço externo do setor de máquinas e equipamentos, ou seja, da nossa indústria de bens de capital. O declínio da exportação de manufaturados, iniciado em 2005-2006, bem antes da crise, faz parceria com a invasão das importações, prenhes de incentivos e subsídios oferecidos generosamente pelos competidores espertos.
Na ausência de medidas potentes de defesa comercial e de intervenções corajosas no mercado de câmbio, o ambiente negativo para a indústria brasileira vai piorar. Já observei em outra ocasião que, na China, o aumento da participação das exportações de manufaturas no comércio global foi acompanhado por um aumento correspondente da participação chinesa no valor agregado manufatureiro. Isso tem uma implicação importante: o valor adicionado às exportações pelo trabalho dos chineses elevou-se com a maior integração da economia ao comércio internacional e, ao mesmo tempo, induziu-o à ampliação das redes de formação e circulação da renda interna.
Os habitantes do Império do Meio leram cuidadosamente Adam Smith e seu crítico maior: entenderam o que significa a divisão do trabalho e a formação de valor induzidos pela industrialização. A partir dessa compreensão nada trivial promoveram políticas intencionais de expansão e diferenciação das forças produtivas e, portanto, das cadeias de criação de valor. Nesse caso, pode-se concluir que houve um “adensamento” das cadeias manufatureiras domésticas que permitiram a apropriação do aumento das exportações pelo circuito doméstico de geração de renda e de emprego.
Na América Latina, inclusive no México, a história foi outra. O México, diferentemente do Brasil e da Argentina, aumentou bastante sua participação relativa nas exportações mundiais. Mas caiu a sua parte na formação do valor agregado manufatureiro global, exprimindo a desarticulação das cadeias produtivas depois da assinatura do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta).
A trajetória de Brasil e Argentina mostra que a integração das economias foi mal concebida e isso determinou não só a desindustrialização relativa, mas também a perda de posição no ranking do valor agregado manufatureiro.
Nos últimos dias, diante dos percalços da indústria e de seus efeitos sobre o crescimento da economia, fica difícil negar os efeitos nefastos da invasão das importações predatórias e desprezaras consequências da participação declinante das exportações brasileiras de manufaturados no comércio mundial. A esta altura do torneio, o óbvio torna-se iniludível. Não são poucos os recalcitrantes que descobriram a cumplicidade das políticas monetárias de outrora com a arbitragem financeira. Ao sustentar espantosos diferencias entre a policy mte nativa e as similares globais, os sabichões deram o sinal para o mercado apostar numa só direção: a valorização continuada do real.
Nos primeiros meses de 2012, a conjugação entre o tsunami de liquidez nas praças desenvolvidas e as perspectivas de redução continuada da taxa Selic gera um paradoxo no curto prazo. A nova “convenção” a respeito do movimento da taxa, agora apontada para baixo desde os níveis estratosféricos em que se encontrava, provoca um aumento do fluxo de dinheiro quente. É a corrida para degustar o último peru de Natal disponível na prateleira, com diz o professor Delfim Netto. Por isso, o Banco Central tem de operar agressiva e aleatoriamente nos mercados spot e futuro para dirimir as desgraças do câmbio supervalorizado.
É de lei advertir para os efeitos inflacionários de uma desvalorização abrupta, sobretudo depois do brutal aumento da participação do fornecimento externo na composição dos custos da estrutura industrial remanescente, fruto, diga-se, da própria insanidade do câmbio valorizado. A transição para outro regime cambial vai exigir maiores cuidados na área fiscal, não só na gestão do gasto, mas também na revisão da estrutura tributária e nos critérios de reajuste das tarifas de insumos de uso generalizado. Nada fácil.

Um comentário:

  1. Belluzo é certeiro como Bruce Lee... Semana que vem caso o juro efetivamente caia, vamos ver no que dá.

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