segunda-feira, 26 de março de 2012

PAUL KRUGMAN: O que a Grécia Significa




Então a Grécia oficialmente deu o calote na dívida junto aos credores privados. Foi um calote “ordenado”, negociado, em vez de simplesmente anunciado, de modo que considero ter sido uma coisa boa. Mesmo assim, a história está longe de encerrada. Mesmo com esse alívio da dívida, a Grécia --como os demais países europeus forçados a impor austeridade em uma economia deprimida-- parece condenada a muitos anos de sofrimento.
 
E essa é a história que precisa ser contada. Nos últimos dois anos, a história grega foi, como colocou recentemente um artigo sobre política econômica, “interpretada como uma parábola sobre os riscos da prodigalidade fiscal”. Não passa um dia sem que algum político ou estudioso não diga, com ar de uma pessoa detentora de grande sabedoria, que devemos cortar os gastos imediatamente ou nos transformaremos na Grécia, como a Grécia nos mostra.
 
Em um exemplo recente, quando Mitch Daniels, o governador do Estado de Indiana, deu a resposta republicana ao discurso do Estado da União, ele insistiu que “nós estamos apenas a uma curta distância atrás da Grécia, Espanha e outros países europeus atualmente enfrentando uma catástrofe econômica”. A propósito, aparentemente ninguém lhe disse que a Espanha tinha uma baixa dívida pública e superávit orçamentário às vésperas da crise; ela está em apuros devido aos excessos do setor privado, não do setor público.
 
Mas o que a experiência grega de fato mostra é que, apesar de incorrer em déficits em bons tempos pode deixá-lo em apuros --que de fato é a história da Grécia, apesar de não a da Espanha--, tentar eliminar os déficits quando você já está em apuros é uma receita para a depressão.
 
Atualmente, depressões induzidas pela austeridade já são visíveis por toda a periferia da Europa. A Grécia é o pior caso, com o desemprego subindo para 20% enquanto os serviços públicos, incluindo a saúde, sofrem colapso. Mas a Irlanda, que fez tudo que os defensores da austeridade queriam, também está em péssimo estado, com o desemprego próximo de 15% e o PIB real caindo em dois dígitos. Portugal e Espanha estão em situação difícil semelhante.
 
E austeridade em uma recessão não provoca apenas vasto sofrimento. Há crescente evidência de que é autodestrutiva até mesmo em termos puramente fiscais, já que a combinação de queda de receita devido à economia deprimida e as piores perspectivas a longo prazo reduzem a confiança do mercado e tornam o futuro fardo da dívida ainda mais difícil de suportar. É preciso se perguntar como os países que estão sistematicamente negando um futuro aos seus jovens --o desemprego entre os jovens na Irlanda, que costumava ser menor do que nos Estados Unidos, atualmente chega a quase 30%, enquanto está próximo de 50% na Grécia-- vão conseguir obter crescimento suficiente para pagar a rolagem de suas dívidas.
 
Não era isso o que deveria ter acontecido. Há dois anos, enquanto muitos autores de políticas e entendidos começaram a pedir para que o estímulo fosse trocado por austeridade, eles prometiam grandes ganhos em troca da dor. “A ideia de que medidas de austeridade podem provocar estagnação é incorreta”, declarou Jean-Claude Trichet, o então presidente do Banco Central Europeu, em junho de 2010. Em vez disso, ele insistia, a disciplina fiscal inspiraria confiança e isso levaria ao crescimento econômico.
 
E cada melhora mínima em uma economia de austeridade era saudada como prova de que a política funcionava. A austeridade irlandesa foi proclamada como uma história de sucesso não apenas uma, mas duas vezes, primeiro em meados de 2010, depois de novo no final do ano passado; em ambas as ocasiões as supostas boas notícias evaporaram rapidamente.
 
Você pode perguntar que alternativas países como a Grécia e a Irlanda tinham, e a resposta é que não tinham e não têm boas alternativas, exceto deixar o euro, uma medida extrema que, realisticamente, seus líderes não podem adotar até que todas as outras opções tenham fracassado --uma situação da qual, se você me perguntar, a Grécia está rapidamente se aproximando.
 
A Alemanha e o Banco Central Europeu poderiam ter agido para tornar essa medida extrema menos necessária, tanto exigindo menos austeridade quanto fazendo mais para estimular a economia europeia como um todo. Mas o ponto principal é que os Estados Unidos têm uma alternativa: nós temos nossa própria moeda e podemos tomar empréstimos a longo prazo a taxas de juros historicamente baixas, de modo que não precisamos entrar no mergulho em parafuso de austeridade e contração econômica.
 
Então é hora de parar de citar a Grécia como uma história de alerta sobre os riscos dos déficits; do ponto de vista americano, a Grécia deveria sim ser uma história de alerta sobre os riscos de tentar reduzir os déficits rápido demais, enquanto a economia ainda está profundamente deprimida (e sim, apesar de algumas boas notícias recentemente, a economia americana ainda está profundamente deprimida.)
 
A verdade é que, se você quiser saber quem está realmente tentando transformar os Estados Unidos na Grécia, não são aqueles que pedem por mais estímulos para nossa economia ainda deprimida; são as pessoas que exigem que copiemos a austeridade ao estilo grego, apesar de não enfrentarmos limitações de tomada de empréstimo como os gregos, para assim mergulharmos em uma depressão ao estilo da Grécia.

Tradutor: George El Khouri Andolfato 

Um comentário:

  1. Para mim, o caso da Grécia(Espanha, Italia, Portugal, etc) é simples. Até alguns anos atrás, antes do governo americano agir com terrorismo contra supostos terroristas pelo mundo, inventando invasões e genocídios por diversos países, a Grécia vivia, principalmente da renda do turismo(não consta grande produção industrial, agricola ou mineral)e pior, dos turistas americanos, em grande quantidade.
    Com o terrorismo de estado implantado no mundo, o próprio governo americano proibe seu povo de viajar pelo mundo por motivo de segurança, como sabemos. Alem do mais , esses países citados, fazem parte da otan (nato), portanto , tiveram que PAGAR (mesmo sem concordar ) as chamadas "guerras" contra o terrorismo.
    Também temos que levar em conta que a dívida Grega (centenas de bilhões)não se refere a dinheiro efetivamente tomado aos bancos e "picaretas" internacionais, dizem que somente de 3% a 4% foram emprestados, o restante são "juros". Por isso não fazem falta nenhuma aos "picaretas" que, se não perdoarem a dívida, terão que cobrar do "bispo". Ou eliminar(matar) toda a população Grega, o que certamente não resolverá nada.
    Vamos todos ao calote.
    Angelo Frizzo

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