segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

As cigarras e as formigas da Europa - por Yannis Varoufakis



Uma nova versão da fábula de Esopo, feita ad hoc para o nosso "Momento europeu na história", quando o colapso da Europa está a ser assegurado pela dominância da narrativa errada. O que se segue é uma tentativa de versão alternativa – uma outra mais adequada a um futuro decente para a Europa.

Outrora um grego chamado Esopo contou a fábula de uma formiga trabalhadora e de uma cigarra perdulária.

Nos últimos dois anos, os gregos ganharam reputação internacional como as cigarras da Europa, com os alemães no papel de formigas. Ai de nós, a reputação dos gregos espalhou-se no ocidente e mesmo no norte (rumo à Ilha Esmeralda) quando toda espécie de não gregos são pintados com o mesmo pincel.

Os agora infames pacotes de salvamento para a Grécia propagaram a visão de que a eurozona está dividida simplesmente entre formigas do norte e cigarras do sul. Com o calor dos dias de Verão do euro já ultrapassados, agora que o dinheiro fácil da Wall Street e da City desapareceu, um Inverno de descontentamento desceu sobre todos nós devido à ociosidade das cigarras.

Portanto a história dominante na Europa de hoje é que, na névoa gélida deste terrível Inverno, as cigarras sulistas estão a bater às portas das formigas do Norte, com chapéu na mão, à procura de um salvamento após o outro. As formigas, compreensivelmente, são reticentes e só responderão se as cigarras prometerem mudar de vida. Em suma, os stocks que as formigas acumularam para o Inverno estão a ser postos em perigo por famélicas e descuidadas cigarras que resistem a mudar as suas vidas dissipadoras.

O problema (para aqueles que procuram entender a Crise) com alegorias atraentes é que estas tanto podem ser uma ajuda como um obstáculo. Neste texto tento argumentar que o conto imortal de Esopo, por mais apropriado que possa parecer à primeira vista, mais contribui para os actuais problemas da Europa do que para a sua solução. O meu raciocínio é simples: As formigas e as cigarras podem ser encontradas tanto na Grécia como na Alemanha, tanto na Holanda como em Portugal, tanto na Áustria como na sua vizinha Itália. Mas quando assumimos que todas as formigas estão no Norte e todas as cigarras no Sul, os remédios que aplicamos são tóxicos.


Sim, é verdade, a Crise colocou uma fatia desproporcionada do fardo sobre as costas das formigas da Europa. Só que as formigas da Europa não são exclusivamente alemãs ou holandesas ou austríacas; e as cigarras não são exclusivamente gregas, ibéricas ou sicilianas. Algumas formigas são alemãs e algumas são gregas. O que une as formigas da Europa, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, é que elas lutam para conseguirem sustentar-se durante os bons tempos e estão a lutar ainda mais agora durante os maus tempos. Enquanto isso, as cigarras, tanto no Norte como no Sul da Europa, viviam a boa vida antes da Crise e estão a safar-se razoavelmente bem agora, dispostas como sempre a privatizar os ganhos e distribuir o sofrimento (para as formigas).

Assim, na minha versão da fábula famosa, se é a de Esopo que queremos utilizar a fim de entender a derrocada da eurozona, será melhor apresentar as nossas formigas e as nossas cigarras de modo certo!

As formigas gregas: Trabalhadoras esforçadas, com dois empregos de baixa produtividade (ex. caixas em supermercado) antes desta Crise, mas que tradicionalmente achavam difícil sustentar-se devido aos baixos salários, condições de trabalho exploradoras, uma taxa de inflação (para os seus humildes cabazes de bens e serviços) muito acima da média oficial (especialmente depois de a introdução do euro ter aumentado os preços dos bens alimentares e básicos), pressão maciça dos bancos e outros estabelecimentos financeiros para contrair empréstimos a fim de proporcionar aos seus filhos o que a TV lhes diz que nenhuma criança deveria ser privada e que os seus magros salários não podem permitir, etc. Chegada a Crise, membros da sua família perderam seus empregos, o resto perdeu partes dos seus rendimentos, empréstimos bancários foram cancelados, impostos subiram, eles têm de considerar viver sem electricidade (pois o Estado tenta extorquir mais tributação deles através da conta de electricidade), as perspectivas da família entraram em colapso. Além disso, estão a ser descritos como os vilões da peça (a do euro e até a global).

As formigas alemãs: Trabalhadoras árduas mas pessoas relativamente pobres, em indústrias de alta produtividade (ex. operários da fábrica VW), a lutarem para sobreviverem tanto antes como depois da crise da eurozona. Seu trabalho cada vez mais produtivo, e baixo, com salários estagnados, significa que as taxas de lucro na Alemanha dispararam e foram convertida em excedentes cuja dimensão cresceu velozmente parcialmente devido a uma redistribuição do rendimento para longa das formigas alemãs e em direcção aos seus patrões e parcialmente devido à maior rede de exportações do país (a qual acelerou quanto estava a tornar-se barato o trabalho alemão). Uma vez criados, estes excedentes procuraram alhures retornos mais elevados, devido às baixas taxas de juros que os excedentes induziram na Alemanha). Isto foi até o ponto em que as cigarras alemãs (os inimitáveis banqueiros cujo objectivo era maximizar ganho a curto prazo com esforço zero) procuraram o Sul em quantidade considerável.

Após anos de taxas de juro mais elevadas e grandes défices, o Sul da eurozona conseguiu diminuir o diferencial da taxa de juro com o Norte. Contudo, ainda havia diferencial, especialmente para empréstimos pessoais e cartões de crédito em que era enorme. Portanto, o capital alemão (produzido pelo árduo trabalho das formigas alemãs, trabalho barato e dirigido pelas irresponsáveis cigarras alemãs) fluiu para Sul em busca de retornos mais altos. O que acontece quando o dinheiro inunda de forma inesperada? Formam-se bolhas. É simplesmente isso. Na Espanha elas assumiram a forma de bolhas imobiliárias, Na Grécia as bolhas manifestaram-se na forma de dívida pública, pois as cigarras gregas (também conhecidos como investidores gregos) acharam mais fácil agarrar os fluxos de capital alemão através das contas do estado, cujos administradores estavam ansiosos por cumular as cigarras gregas com contratos de compras.
 
A forma precisa das bolhas sulistas não importa. Elas estourariam em bocados de qualquer forma, uma vez que explodissem as bolhas maciçamente maiores criadas pelas nossas uber-cigarras transatlânticas (Wall Street). O que importa é que as formigas alemãs viram que o seu árduo trabalho não estava a traduzir-se numa vida melhor mas sim em mais labuta e menos poder de compra.

Nunca salvos

Veio a Crise. Disseram às formigas alemãs que elas deviam apertar os seus cintos outra vez, num momento em que estavam a cair mais profundamente na armadilha da pobreza. Também lhes disseram que o seu governo estava a enviar enormes quantias para o governo grego. Como nunca lhes disseram que não é permitido ao governo grego utilizar este dinheiro para amortecer a pancada contra as formigas grega (na verdade, aqueles empréstimos foram dados na condição de que a pancada contra as formigas gregas seria maximizada de modo a minimizar o sofrimento das cigarras gregas e alemãs), elas ficaram confundidas. Por que estamos nós a trabalhar mais arduamente do que nunca, levando para casa menos do nunca? Por que o nosso governo envia dinheiro para as cigarras gregas e não para nós?

Enquanto isso, as formigas gregas estavam desesperadas e indignadas. As cigarras de ambos os países apontavam o dedo para elas, chamando-as de toda espécie de nomes. A sua confusão atingiu níveis recorde quando disseram que haviam, com efeito, ameaçado (através do seu modo de vida dissipador) deitar abaixo a civilização tal como a conhecemos. Elas arranhavam as suas cabeças, pensando que deve haver um erro uma vez que nunca tiveram quaisquer dias bons durante os supostos bons tempos. Elas haviam lutado então e estão a lutar agora, confessadamente de modo muito mais desesperado. Em relação aos salvamentos (bailouts), elas simplesmente não podem vê-los, pois ninguém lhes diz que as mencionadas enormes quantias acabam nos bancos em bancarrota da Europa, onde caem devidamente em buracos negros sem fundo. E quando vêem alemães a chamá-los de ladrões, corruptos, perdulários, super-gastadores, não é difícil chegar através da memória colectiva a momentos da história que tornam fácil tornar-se anti-alemão.

Uma parte menos esopiana

Antes de o euro ser estabelecido, houve um notável experimento simultaneamente na Grécia e na Alemanha.

Na Alemanha, governos, patrões e sindicatos concordaram em tentar restaurar a competitividade alemã, o emprego e o crescimento através da redução dos salários alemães e, portanto, comprimindo a inflação alemã abaixo da média europeia.

Enquanto isso, na Grécia o governo da altura lutava para preparar o país para o acesso à eurozona também pela compressão dos salários reais, aproveitando também o influxo de migrantes para o país.

O experimento alemão funcionou lindamente e manteve-se a funcionar mesmo depois de o euro ter sido criado. Os salários reais caíram e caíram. O desemprego foi totalmente cortado. As fábricas reluzentes produziam cada vez mais por cada vez menos. Os bens alemães inundavam os mercados e, ao mesmo tempo, o êxito da Alemanha levava o dinheiro a tornar-se ainda mais barato, inundando os países em torno da eurozona, incluindo a Grécia. As formigas da Alemanha trabalhavam arduamente por menos enquanto as cigarras da Alemanha riam no caminho para o seu banco.

O experimento grego também funcionou bem, até a entrada da Grécia no euro. Uma vez dentro, a inundação de dinheiro barato do exterior, da Alemanha bem como da Wall Street, permitiu às cigarras gregas, e seus aliados políticos no governo, tomar emprestado dos alemães (os bancos) como se não houvesse amanhã. Toda vez que as formigas gregas pediam algum dos benefícios de estar no euro elas eram ou subornadas com míseros empregos no sector público, pagos com dinheiro emprestado, ou diziam-lhes para ir aos bancos e contrair empréstimos directamente. Na retaguarda dos fundos estruturais europeus e dos rios de dinheiro emprestado, as cigarras gregas, em aliança com algumas alemãs, ficavam cada vez mais gordas ao passo que as formigas gregas lutavam para sobreviver.
 
E então a Wall Street entrou em colapso pelas suas próprias razões. Quando o colapso atravessou o Atlântico, atingindo primeiro os bancos e as finanças públicas da eurozona depois, foi o estado das cigarras gregas que foi à falência em primeiro lugar. Alguém tinha de ser culpado. As cigarras da Europa acharam conveniente recorrer ao último refúgio dos canalhas: o nacionalismo. Subitamente foi encenada uma guerra de palavras, entre gregos e alemães, nortistas e sulistas, que esconde uma terrível verdade: Ninguém foi salvo excepto algumas das cigarras tanto do Norte como do Sul.

Moral da história (todas as fábulas de Esopo tem uma!)

Muitos pensam a parábola de Esopo como uma fábula de moralidade cujo objectivo era simplesmente advertir contra a indolência, preguiça e um desprezo pouco saudável para com o futuro. Ai de nós, ela era mais do que isso. Esopo estava a tocar o sino de alarme tanto contra o excesso de gastos das cigarras como a extrema frugalidade das formigas.

Hoje há um outro aspecto que precisa ser acrescentado à sua moral: O de que, quando as formigas e as cigarras estão distribuídas através da divisão que separa o excedente de países em défice dentro de uma união monetária mal concebida, o cenário fica ajustado para uma depressão que põe todos contra todos numa espiral viciosa da qual só podem emergir perdedores. Um cenário do qual ninguém pode ser salvo (mesmo aqueles que, como a Alemanha, podem salvar-se, deixando a eurozona, estarão a cometer uma forma de suicídio lento, a longo prazo).

Nossa única opção: Subverter a narrativa dominante. Reconhecer a co-existência de formigas abandonadas e cigarras super-inchadas por toda a eurozona é um bom comêço.
15/Dezembro/2011
O original encontra-se em yanisvaroufakis.eu/...

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