quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A polarização Estado-mercado é reducionista - Ha-Joon Chang


Valor Econômico


Segundo Ha-Joon Chang, nenhuma teoria econômica dá conta de explicar todos os países, o que torna necessário recorrer a múltiplas referências

Ha-Joon Chang é um dos mais ativos representantes da economia institucional. Seus livros de títulos provocativos - "Maus Samaritanos" (2008), "23 Things They Don't Tell You About Capitalism" (2011) - oferecem explicações incomuns para o funcionamento da economia. Em "Chutando a Escada" (2004), Chang argumenta que os países desenvolvidos enriqueceram com políticas heterodoxas e, ao recomendar medidas ortodoxas aos emergentes, "chutam a escada" que os levaria à mesma riqueza. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: O senhor afirma que a teoria econômica está presa em moldes estreitos. Como se poderiam romper esses moldes?


Ha-Joon Chang: Temos operado numa dicotomia entre Estado e mercado. Isso é muito redutor, porque mercados funcionais precisam de Estados funcionais e vice-versa. Ao mostrar que Estados e mercados são só duas, dentre muitas formas institucionais alternativas de organização da atividade econômica, incluindo firmas capitalistas, cooperativas, associações industriais, cartéis, sindicatos etc., e que há muitas complementaridades entre as instituições, a economia institucional revela que a estreita dicotomia mercado-Estado ajuda pouco a entender o mundo real. Quando conseguirmos entender a diversidade e a complementaridade das instituições, incluindo o Estado e o mercado, estaremos menos expostos a dogmas extremistas, como o livre mercado e o planejamento estatal, e poderemos conduzir políticas mais pragmáticas, que aumentariam a probabilidade de sucesso no desenvolvimento.

Valor: O senhor argumenta que o mercado financeiro é estruturalmente falho. Considerando a dependência que a economia mundial tem das finanças, isso quer dizer que estamos diante de algo muito além de apenas uma crise?

Chang: Temo que estejamos. Os proponentes da finança desregulada argumentam que a crise de 2008 foi um evento único, algo que ninguém poderia ter previsto e, portanto, o sistema só precisa de mudanças marginais, como mais transparência e maiores exigências de capitalização. Acontece que a crise atual é o resultado de 30 anos de desregulação, que criou um sistema tão complexo que não temos mais como controlá-lo. Uma resposta comum, já sugerida por Alan Greenspan, é que o sistema financeiro ficou complexo demais para qualquer regulação. Mas esse é um argumento pouco engenhoso. É claro que poderíamos simplificar o sistema financeiro. Se banirmos alguns instrumentos complicados demais e regularmos outros mais rigidamente, o sistema vai se tornar muito mais simples e fácil de regular.

Valor: O senhor é influenciado por autores de todo o espectro ideológico, desde os austríacos até os marxistas, passando pelos keynesianos e os neoclássicos. A versatilidade faz falta às análises econômicas dos eventos recentes?

Chang: O argumento mais poderoso a favor do ecletismo intelectual está no mundo real, que não pode ser entendido com uma única teoria. O melhor exemplo é Cingapura. As pessoas só conhecem Cingapura como um país de livre comércio, receptivo ao investimento direto estrangeiro. Poucos sabem que o governo é dono de toda a terra, que 85% da moradia é fornecida pela empresa imobiliária estatal, que mais de 20% da produção industrial do país é estatal. Se alguém inventasse uma economia plenamente funcional com base em uma única teoria, poderia imaginar algo como Cingapura? É claro que não. O país combina os elementos mais extremos do mercado livre e do socialismo. Deveríamos aceitar que diferentes teorias iluminam diferentes problemas.

Valor: Como se relacionam a esfera da política e a da economia, neste momento em que crise política e crise econômica se confundem nos Estados Unidos e na Europa?

Chang: É impossível separar economia e política. O problema da dívida europeia não é puramente econômico, porque sua origem é em parte política e sua solução, ou falta de solução, também. Por exemplo, a decisão de incluir os países mais fracos, "periféricos", na zona do euro foi uma decisão política. A falta de solução da crise é resultado, em grande medida, de questões de cunho político, porque se determina pela recusa dos países europeus mais ricos a criar uma união fiscal plena, além da recusa a deixar que seus próprios bancos arquem com alguns custos do ajuste.

Valor: O senhor afirma que, nas últimas décadas, a economia mundial se organizou de tal forma que os países ricos ditavam aos pobres o que fazer. Agora que os ricos estão atolados e os emergentes brilham, o que podemos esperar?

Chang: Desde os anos 1980, os países ricos passaram a impor uma série de medidas, conhecidas como Consenso de Washington, através de ajuda bilateral e instituições de empréstimo. Esse domínio tem se enfraquecido, não só porque os ricos estão estagnados e muitos emergentes vêm crescendo desde a crise de 2008. Já na virada do século, certos emergentes, particularmente os latino-americanos, começaram a se afastar do Consenso de Washington. Essas políticas se revelaram ineficazes nos anos 1980 e 1990. Outro motivo foi que a China começou a aumentar sua influência, oferecendo ajuda financeira para os emergentes. Agora os emergentes têm uma fonte alternativa de financiamento e não precisam obedecer cegamente. Mas acho prematuro prever uma nova ordem mundial. As economias ricas ainda somam 75% da economia mundial, controlam as principais tecnologias, têm influencia desproporcional nas agências internacionais e possuem um estoque fenomenal de "soft power". Tampouco há garantias de que países como a China e a Índia vão continuar crescendo tão rápido, já que têm problemas internos enormes, especialmente a desigualdade.

Valor: Impedir os emergentes de usar os mesmos meios que serviram aos ricos para crescer é uma estratégia deliberada dos países desenvolvidos ou fruto de ideologia?

Chang: Há muitas motivações por trás do "chutar a escada". Em alguns países, se faz isso por convicção ideológica: acredita-se que é um modo de ajudar os emergentes, com imposição do liberalismo. Outros são pautados por interesses corporativos, como lobbies que exigem do governo a abertura de mercados em países específicos. Outros querem impedir o surgimento de um "outro Japão" - embora o próprio Japão, hoje, chute escadas. O interessante é que, sejam quais forem seus motivos, as pessoas não conhecem a história de seus próprios países e pensam que os países ricos enriqueceram graças ao liberalismo. Uma minoria reconhece que, em alguns países, os subsídios foram usados, mas argumentam que teriam crescido ainda mais sem essas políticas, ou então que "os tempos mudaram" e aquelas políticas já não têm a mesma validade.

Valor: Um governo forte demais, no outro extremo, também não parece ser a solução.
: Há muitos exemplos de intervenção estatal que falhou, mas muitas das supostas falhas não o são de verdade. Por exemplo, neoliberais costumam argumentar que a industrialização por substituição de importações foi um desastre na América Latina. Mas o crescimento per capita na região costumava ser de 3,1% por ano, e depois de 1980 foi de só 1,1%. É claro que a solução não é "mais governo". A combinação perfeita de intervenção estatal, liberdade do mercado e outras instituições (como firmas) só pode ser decidida de acordo com a realidade de cada país. Cada um tem suas condições naturais, estruturas econômicas, sistemas políticos e valores morais. Não existe um sistema universal.

Valor: A ideologia do mercado desregulado foi dominante por 30 anos. Agora que o sistema financeiro está em crise, existe algum outro sistema à vista?

Chang: A crise atual forçou muitos neoliberais a aceitar que algumas reformas precisam ser feitas. Mas ainda há muitos defensores do sistema que não cedem, seja por convicção ideológica, seja porque sua riqueza e poder estão em jogo. Em alguns países, tiveram sucesso em usar a crise para aprofundar políticas neoliberais. Veja-se o Reino Unido, que usou o déficit como desculpa para reduzir o Estado de bem-estar. Mas a crise vai prosseguir por pelo menos mais alguns anos. Com a estagnação e o desemprego, as forças que conduzem à reforma do sistema vão crescer.

Valor: Como o senhor avalia o modelo de desenvolvimento do Brasil neste início de século? Como se compara ao modelo coreano do século passado, que o senhor descreve como caracterizado por empréstimos estatais, grandes corporações e um setor financeiro regulado?

Chang: Em meados do século XX, a Coreia, dos anos 1960 até o início dos 1990, e o Brasil, dos anos 1930 até os 1970, tinham níveis muito próximos de desenvolvimento. As diferenças foram: 1) o Brasil não enfatizou suficientemente as exportações, o que o deixou vulnerável a crises de balanço de pagamentos; e 2) o Brasil dependeu muito mais de corporações transnacionais para o desenvolvimento tecnológico do que a Coreia, que tinha um dos regimes mais restritivos do mundo para empresas estrangeiras. Nesse período, ambos os países tiveram bom desempenho, embora a Coreia tenha crescido mais rápido e com mais igualdade. Ambos os países se afastaram desses modelos nos anos 1990, reduzindo o protecionismo, desmanchando a política industrial e desregulando o setor financeiro. Os resultados foram melhores na Coreia do que no Brasil, em que interesses financeiros forçaram o país a usar taxas de juros altas para controlar a inflação. A elevação de preços foi controlada, mas, com uma das taxas de juros reais mais altas do mundo, o país teve muito menos investimento e, portanto, crescimento.

Valor: O afrouxamento monetário nos Estados Unidos não colocou a economia de volta na trilha do crescimento, mas talvez tenha evitado uma recessão de verdade. Agora o presidente Obama está tentando a tática de geração de empregos. Será suficiente?

Chang: O afrouxamento monetário teve um certo papel positivo para evitar que a crise fosse pior. Mas foi pouco eficaz para salvar a economia, já que os bancos não usaram a liquidez aumentada para emprestar a outras empresas. O resultado em investimentos e criação de empregos foi muito fraco e os benefícios se concentraram no setor financeiro. Teria sido mais eficiente um estímulo fiscal, cuja vantagem seria garantir que o dinheiro vá para atividades que incentivam a produção e o emprego. Infelizmente, a influência do lobby financeiro na política é tanta que o estímulo fiscal foi considerado inaceitável. O plano de empregos de Obama é mais eficaz do que mais outro afrouxamento, mas quase todos concordam que é muito tímido. Além do mais, depois de perder os casos do déficit orçamentário e dos cortes de gastos, não podemos nem ter certeza de que essa medida "insuficiente" vá passar pelo Congresso.

Um comentário:

  1. "Chutando a Escada", foi durante meu curso, uma luz no fim do túnel...

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