segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Paul Krugman: Movimento "Occupy Wall Street" chacoalha império dos mais ricos nos EUA




Ninguém sabe ao certo se as manifestações de protesto do movimento Occupy Wall Street (Ocupar Wall Street) mudaram o rumo dos Estados Unidos. Mas os protestos já provocaram uma reação notavelmente histérica de Wall Street, dos super ricos em geral e de políticos e especialistas que são confiáveis no que se refere a atender aos interesses daquela parcela de 1% da população composta pelos indivíduos mais ricos do país.
E essa reação nos diz algo importante: que os extremistas que estão ameaçando os valores estadunidenses são aqueles que Franklin Delano Roosevelt apelidou de “monarquistas econômicos”, e não o povo que está acampando no Parque Zuccotti.

Vejamos primeiro como foi que os políticos republicanos retrataram o tamanho modesto, apesar de crescente, das manifestações, que envolveram alguns confrontos com a polícia – confrontos que parecem ter envolvido uma grande dose de reação policial exagerada –, mas nada que pudesse ser classificado como uma rebelião violenta. E, na verdade, ainda não houve até o momento nada que se comparasse ao comportamento das multidões do Tea Party no verão de 2009.
Apesar disso, Eric Cantor, o líder da maioria na Câmara dos Deputados, denunciou as “multidões de agitadores” e “o ato de promover o confronto entre cidadãos norte-americanos”. Os candidatos presidenciais do Partido Republicano se manifestaram quanto à questão, e Mitt Romney acusou os manifestantes de fazer uma “guerra de classes”, enquanto que Herman Cain chamou-os de “antiamericanos”. Entretanto, o meu comentário favorito foi o do senador Rand Paul, que por algum motivo teme que os manifestantes comecem a confiscar iPads, por acreditarem que os ricos não merecem ter esses aparelhos.
Michael Bloomberg, prefeito de Nova York e um titã industrial e financeiro, foi um pouco mais moderado, mas ainda assim acusou os manifestantes de tentarem “retirar o emprego de pessoas que trabalham nesta cidade”, em uma declaração que não tem nada a ver com as metas reais do movimento.
E quem ouviu os comentaristas da CNBC ficou sabendo que os manifestantes “hastearam as suas bandeiras malucas” e “são seguidores de Lenin”.
Para entender tudo isso é necessário perceber que esse fenômeno faz parte de uma síndrome mais ampla, segundo a qual os norte-americanos ricos que se beneficiam imensamente de um sistema viciado para favorecê-los reagem histericamente a toda pessoa que mostre como esse sistema é corrupto.
No ano passado, conforme nos lembramos, vários magnatas do setor bancário ficaram histéricos diante de uma crítica muito leve do presidente Barack Obama. Eles acusaram Obama de ser quase um quase socialista por ter endossado a legislação Volcker, que simplesmente proíbe os bancos apoiados por garantias federais de praticarem operações especulativas arriscadas. E, quanto à reação deles às propostas no sentido de acabar com uma brecha legal que permite que alguns deles paguem impostos notavelmente baixos – bem, Stephen Schwarzman, presidente do Blackstone Group, comparou essa iniciativa à invasão da Polônia por Hitler.
Além disso há a campanha de destruição de imagem pessoal lançada contra Elizabeth Warren, a reformista financeira que atualmente disputa o Senado por Massachusetts. Não faz muito tempo que um vídeo do YouTube mostrando Warren fazendo uma defesa eloquente e lúcida da cobrança de impostos dos ricos se tornou um enorme sucesso. Nada do que ela falou foi radical – a argumentação dela lembrava mais uma versão moderna do famoso ditado de Oliver Wendell Holmes: “Impostos são o preço que nós pagamos pela sociedade civilizada”.
Mas quem ouviu os defensores aguerridos dos ricos pode ter pensado que Warren é a reencarnação de Leon Trotsky. George Will declarou que ela possui uma “agenda coletivista”, e que acredita que “o individualismo é uma quimera”. E Rush Limbaugh a chamou de “uma parasita que odeia o seu hospedeiro, e que deseja destruí-lo enquanto suga a vida dele”.
O que está acontecendo? A resposta, sem dúvida, é que os Senhores de Universo de Wall Street percebem, no fundo, como a posição que assumem é moralmente indefensável. Eles não estão à altura de um John Galt ou de um Steve Jobs. Estamos falando de indivíduos que enriqueceram por meio de negociatas envolvendo esquemas financeiros complexos que, longe de gerar benefícios nítidos para o povo norte-americano, ajudaram a nos empurrar para uma crise cujos efeitos continuam a atormentar a vida de dezenas de milhões de cidadãos.
Mas eles não pagaram nenhum preço por isso. As suas instituições foram socorridas pelos contribuintes, com poucas exigências ou condições. Eles continuam a se beneficiar das garantias federais explícitas e implícitas – basicamente, eles ainda estão em um jogo peculiar de cara ou cora: cara, eles vencem, coroa, os contribuintes perdem. E eles se beneficiam de brechas fiscais que, em muitos casos, permitem que pessoas dotadas de milhões de dólares paguem menos impostos do que as famílias de classe média.
Esse tratamento especial não resiste a um escrutínio detalhado – e, portanto, na opinião deles, não pode haver nenhum escrutínio detalhado. Quem quer que aponte o óbvio, ainda que de forma calma e moderada, tem que ser demonizado e expulso do palco. De fato, quanto mais razoável e moderada for a crítica, mais urgentemente o indivíduo que a fez precisa ser demonizado, e isso explica as acusações frenéticas contra Elizabeth Warren.
Portanto, quem está sendo de fato antiamericano nesse cenário? Não são os manifestantes, que estão simplesmente tentando fazer com que as suas vozes sejam ouvidas. Não, os verdadeiros extremistas são os oligarcas norte-americanos, que desejam suprimir qualquer crítica dirigida contra as fontes das suas riquezas.

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