segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A internacionalização da moeda chinesa - João Ricardo Trevisan de Souza




A moeda chinesa, o Yuan ou Renminbi, está pouco a pouco subindo os degraus  para se tornar uma moeda totalmente internacionalizada. Para atingir este status de moeda internacional, o Yuan deve cumprir as três funções da moeda em escala global, isto é, funcionar como meio de troca, unidade de medida e reserva de valor para agentes localizados em qualquer país do mundo, assim como faz, atualmente, o Dólar americano. No entanto, o caminho é permeado de obstáculos dentro e fora do país.

As notícias mais recentes indicam o crescente papel do Yuan na economia mundial. O volume de títulos de companhias privadas não financeiras emitidos em Yuan ultrapassou o volume dos mesmos títulos emitidos em Euro, atingindo o equivalente a U$ 31 bilhões. Além disso, o governo chinês está em um processo avançado de negociação para criar um centro offshore de transações em Yuan na cidade de Londres. Por fim, a moeda chinesa já desempenha um papel fundamental nas transações comerciais entre a China e alguns países do Sudeste Asiático e África.


Nenhum destes movimentos, no entanto, vem ocorrendo por acaso ou como mera conseqüência do crescimento da importância da economia chinesa no mundo. Pela contrário, a estratégia de expandir as funções do Yuan para todo o mundo foi determinada pelo Plano Qüinqüenal aprovado no início do ano e vem tomando força devido a crise que afeta (principalmente) as economias centrais. Em artigo publicado no Project Syndicate (www.projectsyndicate.org) Yu Yongding lista alguns dos benefícios de estar no topo da pirâmide de moedas:

1) Eliminação do risco cambial para as empresas
2) Maior eficiência para as instituições financeiras
3) Redução do custo de transações no comércio internacional
4) Menor dependência de títulos emitidos pelos EUA
5) Maior margem de manobra para as políticas econômicas
           
Dentre os pontos levantados por Yu Yongding, 4) e 5) são de extrema importância. Atualmente, as reservas de moeda estrangeira da China eqüivalem a U$ 3 trilhões. A maior parte deste monstruoso valor é composto por títulos denominados em Dólar, o que coloca o país em uma posição bastante delicada em caso de fortes desvalorização da moeda americana.

A maior margem de manobra a que Yu Yongding refere-se foi utilizada ao extremo pelos EUA desde que sua moeda substituiu o ouro como regulador do comércio internacional. Recentemente, esse poder extra oferecido ao detentor da moeda internacional foi utilizado com o codinome “quantitative easing”.

Além disso, possuir uma moeda mais forte internacionalmente (não necessariamente uma que exerça as três funções mencionadas anteriormente) significa poder emitir títulos em sua própria moeda e evitar o chamado “currency mismatch”.

Entretanto, ainda falta muito para a moeda chinesa chegar ao patamar do Dólar ou até mesmo o Euro. E o maior dos desafios parece ser o controle de capitais utilizado, sabiamente, pela China para controlar a entrada de investimentos de curto prazo.

A abertura descuidada da conta de capitais poderia trazer graves conseqüências para o país. Lembre-se que o Yuan, devido a agressiva política comercial adotada, é mantido em um patamar abaixo do que seria normal de acordo com as forças do mercado, consequentemente, a abertura descuidada poderia provocar uma verdadeira corrida ao Yuan na expectativa da valorização da moeda. Os efeitos deste tipo de comportamento de manada são bastante conhecidos, especialmente pelos países asiáticos que sofreram com a crise de 1997.

Em suma, a internacionalização da moeda oferece uma gama de benefícios a China. No entanto, como conclui Yu Yongding, os fatores da internacionalização devem ser intrínsecos a economia e não apenas especulativos. Consequentemente, o caminho e a velocidade do movimento de globalização da moeda podem ser diferentes do que esperam os investidores (e especuladores).

João Ricardo Trevisan de Souza

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