quarta-feira, 5 de outubro de 2011

De acordo com pesquisa, brokers agem de modo mais inconsequente que psicopatas




O caso do broker inglês que deu prejuízo de 2 bilhões de euros ao UBS parece ter causado grande comoção na suiça. O NZZ, o maior jornal de Zurich publicou interessante pesquisa feita na universidade de St. Gallen sobre o comportamento de brokers. Claro que não se devem exagerar as conclusões a partir dos resultados. O que eles demonstram, apenas, é que a idéia neoclássica de um equilíbrio ótimo, trazendo ganhos para todos e que faria parte de uma racionalidade "quase-metafísica" do mercado tem problemas sérios de ser verificada na realidade. Traduzi o artigo e colo abaixo. Talvez fosse interessante publicá-lo.



A dimâmica destrutiva da especulação

De acordo com pesquisa, brokers agem de modo mais inconsequente que psicopatas.
Pesquisa na Universidade de St. Gallen investigou o comportamento de agentes da bolsa, comparando-o ao de psicopatas diagnosticados. Os resultados são inquietantes.

Markus Städeli

O “timing” do estudo é perfeito:Thomas Noll e Pascal Schrrer invetigaram em um trabalho de MBA, na universidade de St. Gallen, o comportamento de 27 corretores da bolsa que trabalham tanto em grandes bancos suiços, como em bolsas de futuro e fundos de hedge.

Eles realizaram a pesquisa de forma que ela fosse comparável, de modo metodologicamente exato, com os resultados obtidos em uma pesquisa realizada entre 24 psicopatas internados em clínicas de alta-segurança alemãs e um grupo de controle de 24 pessoas “normais”. A hipótese da pesquisa de Noll e Schrrer era a de que o comportamento dos corretores em uma simulação computacional do dilema do prisioneiro seria semelhante ao comportamento egoísta e não-cooperativo de psicopatas demonstrado em experimento semelhante. Embora se pudesse esperar que os brokers  pudessem demonstrar uma melhor performance, com maiores ganhos indidivuais finais em suas decisões.

A hipótese foi entretanto desementida pelos experimentos. Embora de maneira ainda mais desfavoravel para os corretores da bolsa. De acordo com os resultados, os agentes da bolsa se comportaram de modo claramente menos cooperativo que os psicopatas ou o seu grupo de controle. De 40 jogos realizados pelos corretores, 12 foram, em média, não-cooperativos. Os psicopatas – que costumam ser julgados como totalmente desprovidos de qualquer tipo de empatia e reponsabilidade social – tiveram apenas 4,4 resultados não-cooperativos, em média. No grupo de controle a média não passou de 0,2.

A performance dos 27 corretores também surpreendeu. Agentes cujo trabalho se baseia em negociar instrumentos como ações, derivativos e contratos de câmbio, também tiveram resultados piores que os psicopatas no que diz respeito aos ganhos finais de suas decisões. De fato, eles são capazes de maximizar os próprios ganhos às custas de seus oponentes. Porém, no que diz respeito às medidas de performance geral – os ganhos absolutos – eles ficaram um pouco atrás dos psicopatas. “Se você maximiza os próprios ganhos relativos apenas por meio de uma redução dos ganhos absolutos do seu oponente, você demonstra um comportamento altamente destrutivo”, ponderou o autor do estudo, Thomas Noll, que é psiquiatra e diretor da clínica judiciária de Pöschwies. “É como se você destruísse o automóvel do seu vizinho com um taco de beisebol, para que seu carro seja o mais bonito da rua”.

“Caso esses corretores se comportem de moto tão incooperativo no trabalho, como na situação do ‘dilema’, seria interessante saber se os departamentos dos bancos atraem esse tipo de gente ou se eles se tornam assim, depois de trabalhar nesse ambiente”, diz Noll. Para isso, segundo o pesquisador, seria necessário realizar um estudo com aqueles profissionais que vão entrar nesse negócio, e assim compará-los com aqueles que já estão lá há mais de 10 anos. O quão seguro é um estudo com apenas 27 pessoas? Como ele demonstra uma diferença média tão grande entre os valores, ele se torna, do ponto de vista estatístico, significante, mesmo com o pequeno número de pessoas testatas.

É certamente difícil de dizer em que medida um jogo de computador pode servir para julgarmos os comportamentos verificados na prática cotidiana. Entretanto, o chefe de alguns dos corretores que foram pesquisados, ao saber dos resultados, disse que iria avaliar se o banco não deveria intoduzir o jogo com o dilema do prisioneiro como parte de seu sistema de recrutamento.

Certamente, parece fazer sentido a idéia de que os bancos devessem prestar mais atenção na personalidade de seus empregados. Como se sabe, a premissa de muitos executivos, de que os perigos da especulação inconsequente podem ser evitados apenas com a regulação interna dos procedimentos não parece ser verdade.

Esse é, aliás, o resultado de uma tese de doutorado sobre o efeito da regulação do comportamento dos agentes de mercado, realizada por Roland Pfyl, também na Universidade de St. Gallen. Pfyl realizou sua pesquisa doutoral trabalhando dentro do setor de controle interno de um banco. “As diversas formas de regulamento introduzidas não parecem ter resolvido o problema”, ele diz. “Ao contrário, eles podem levar a que os chefes se sintam protegidos por uma ‘segurança aparente’, o que os leva a dar mais responsabilidade para os gerentes de risco, prestando ainda menos atenção a seu comportamento”.

Há um desacoplamento entre os mecanismos de controle e os comportamentos cotidianos dos escritórios dos bancos. Vários bancos vivem de uma dinâmica  baseada em relações diretas de confiança com seus clientes ou contratantes. “Com um controle crescente das práticas internas, torna-se impossível observar todos os regulamentos internos. Assim, todos passam a se mover de modo natural em uma zona cinzenta”. Pfyl observou igualmente uma atitude um tanto oportunista frente aos regulamentos internos. Segundo o mote: Tudo que não é proibido é permitido. Esse é um resultado que causa preocupações.
Experimento central da teoria dos jogos

A situação do “dilema do prisioneiro” é utilizada na ciência para testar a disposição para cooperação e comportamento egoístico entre indivíduos. É um elemento central da chamada “teoria dos jogos”, que se baseia na premissa de que o sucesso de um agente não se baseia apenas em sua ação individual, senão da ação de outros atores.

Os participantes de um jogo, segundo o esquema do dilema do prisioneiro, tem duas alternativas de ação: cooperar com um parceiro ou traí-lo. A forma básica funciona mais ou menos assim: duas pessoas são suspeitas de terem, juntas, roubado um banco. A polícia pode provar contra eles, entretanto, apenas o crime de porte ilegal de armas. Então ela faz a seguinte proposta: Se um deles confessa o roubo, ele não é denunciado e é libertado. Seu cúmplice porém será condenado a 5 anos de prisão. Se os dois confessarem o roubo, ambos recebem uma condenação de 4 anos. Se nenhum dos dois confessa o crime de roubo, ambos serão condenados a 1 ano por porte ilegal de armas. Como os ladrões são interrogados em celas distintas, eles não podem coordenar suas ações. O jogo é realizado em várias rodadas. De modo que os participantes podem levar em consideração o comportamento dos outros em rodadas anteriores em suas decisões.

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