quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O funcionamento dos diferentes sistemas monetários internacionais



Este trabalho procura elaborar a compreensão do funcionamento dos diferentes sistemas monetários internacionais que levaram à formação do sistema monetário atual. Para isso, será feita uma comparação abordando diferentes pontos de vista dos autores Eichencgreen e DeCecco.


Nesse contexto, o Padrão- Ouro foi um sistema monetário internacional de taxas de câmbio fixa cujo surgimento e operação devem ser entendidos num contexto histórico e pelas decisões dos governos nacionais. Nesse contexto o Padrão- Ouro foi marcado pela hegemonia política e mercantil da Inglaterra que se comprometia na sustentação do sistema no âmbito internacional.

Assim, as modificações no ambiente político e econômico mundial alterou o princípio do equilíbrio necessário para que houvesse uma separação das decisões governamentais política e os interesses existentes do governo quanto ao funcionamento do sistema econômico internacional.


Portanto, o declínio do Padrão- Ouro sinalizava que o padrão monetário se alterava frente as mudanças conjunturais, ocorrendo assim um descompasso que deveria ser administrado. Foi a 1ª Guerra Mundial que representou o colapso do sistema.


Sistema Bimetálico

Ao longo do século XIX os estatutos monetários de muitos países permitiam a cunhagem e circulação simultânea de dois metais: a prata e o ouro. Esse tipo de legislação monetária se deu com países que, ao mesmo tempo em que defendiam o bimetalismo, comercializavam com blocos que praticavam o Padrão-ouro e o Padrão-prata e, em alguns casos, esses paises Bimetálicos funcionavam com elo entre os países praticantes do Padrão-Ouro e os que praticavam o Padrão-Prata.

Embora possa parecer que o bimetalismo representava uma vantagem para os países que dele participavam, na verdade, não era isso o que se verificava; a manutenção e sustentação do bimetalismo era algo extremamente difícil e, por isso, esse sistema é tido como instável. O bimetalismo dava abertura para a prática de arbitragem, ou seja, a diferença de preços dos metais (ouro e prata) entre os países estimulava a prática de especulação. Para melhor compreender esse mecanismo utilizaremos um exemplo hipotético:

Suponhamos que na Inglaterra um oz (1oz) de ouro equivalesse a 16 oz de prata, já no mercado mundial, esse mesmo 1oz de ouro equivalesse a 15,5 oz de prata. Um indivíduo que more na Alemanha, por exemplo, pode ir até o Banco central da Alemanha e trocar 15,5 oz de prata por 1oz de ouro, feito isso, ele dirige-se para Londres onde, leva seu 1oz de ouro até o Banco da Inglaterra e troca por 16 oz de prata. Ao retornar para a Alemanha procura novamente o Banco Central e troca novamente 15,5 oz de prata por 1 oz de ouro; ao final do processo, esse indivíduo fica com 0,5oz de prata adicionais devido à diferença de preços desse bem no mercado mundial.

Essa atividade arbitrária enuncia a Lei de Greshan que diz que, em um país onde prevalece o sistema bimetálico, a moeda ruim (nesse caso a prata) expulsa de circulação e das reservas a moeda boa (ouro). A Alemanha fica esvaziada de ouro (moeda boa) enquanto a prata transborda nos seus cofres. Essa relação arbitraria ocorre até o ponto em que a proporção do preço de ouro e prata estivesse acima da certeza de cunhagem, e essa arbitragem se prolongaria até o momento em que todas as reservas de ouro de um país fossem exportadas. Ouro e prata só circulavam simultaneamente se as proporções no mercado e na cunhagem permanecessem próximas.

O bimetalismo se manteve vigorante dos séculos XVI a XIX, mesmo sendo um sistema comprovadamente instável e desvantajoso de certo ponto de vista, havia motivos que estimulavam a permanência de tal sistema:

1.    Até o surgimento das maquinas a vapor, era inviável sustentar o Padrão-Ouro visto que, moedas de ouro continham um alto valor, trabalhadores se sentiam desestimulados a carregar tal moeda tornando-a inútil e, além disso, a cunhagem de ouro era muito difícil sem o auxílio das máquinas.
2.    Fatores políticos impediam que houvesse a desmonetarização da prata, havia um suporte do preço de tal metal estimulando mais e mais sua produção.

O fator que deu maior credibilidade para a permanência do bimetalismo foi a externalidade em rede. Havia vantagem para um país em manter os mesmos arranjos monetários adotados por outros países. Estruturas equivalentes facilitavam as relações de comércio e de tomadas de crédito entre países. Embora houvesse uma padronização do sistema monetário entre os países, não significa que tal modelo correspondesse ao mais eficiente.

Padrão- Ouro: surgimento e Crise segundo Eichencgreen

Entre os motivos que levaram o final do Sistema Bimetálico podemos destacar a Guerra Franco-Prussiana que, além de ter desestabilizado a relação "fraterna" entre França e um conjunto de estados germânicos liderados pela Prússia fez com que a França (país perdedor) pagasse indenizações de guerra para a Alemanha. A Alemanha ficou com seus cofres repletos de ouro já que, a França, cumpria suas obrigações em ouro, vendo o deslanchar da Inglaterra como uma potencia econômica que adotara o Padrão-Ouro em 1717 e o progresso que a I Revolução Industrial trouxe. A Alemanha vende suas reservas de prata e as troca por ouro e adota em 1871 o Padrão-Ouro.

Além disso, a comercialização com a Inglaterra se dava obrigatoriamente com ouro já que esse país já havia adotado o Padrão-Ouro em 1717 quando, mesmo após a descoberta de novas minas de ouro, Isaac Newton, que havia sido nomeado para a função burocrática de Mestre da Cunhagem da Casa da Moeda mantém o preço do ouro, enquanto os demais países promoveram uma redução do preço de tal metal desse modo, houve uma "corrida pela troca" na Inglaterra, muito ouro entrava, mas uma quantidade muito superior de prata saía. A Inglaterra se viu sem reservas de prata e com muito ouro em seus cofres, adotou então o Padrão- Ouro. Sendo assim, houve uma necessidade em abandonar-se o bimetalismo e adotar o Padrão-Ouro para não ficar atrás na comercialização com a Inglaterra e nem em relação aos benefícios trazidos pela I Revolução Industrial, o restante do mundo adota o Padrão-Ouro devido às externalidade em rede, temendo serem prejudicados pela comercialização mundial.

Segundo Barry Eichengreen, o padrão ouro foi um sistema internacional de taxas de câmbio fixas, cujo surgimento e operação se deram graças às condições históricas específicas da época de sua implantação e também a várias decisões autônomas de governos nacionais.

O clima político em torno do padrão ouro dirigia-se para a estabilidade da moeda e das taxas de câmbio, pressupondo ausência de pressões sociais que visassem a reorientação das políticas governamentais para outros fins. Porém, uma eventual perda de confiança na capacidade de sustentação da conversibilidade implicava em uma grande vulnerabilidade dos sistemas financeiros.

O Padrão Ouro funcionava de tal maneira que o público efetua depósitos em peças metálicas e recebe como contrapartida um tipo de certificado de depósito, conversível em ouro a qualquer momento. Uma vez que os agentes não solicitam suas reconversões ao mesmo tempo, criam-se condições para que as casas bancárias possam emitir certificados de depósito sem o correspondente lastro em ouro. Assim sendo, enquanto houver confiança do público em seu sistema bancário, os certificados de depósito são utilizados como meios de pagamento.

No início do século XIX somente a Grã-Bretanha havia adotado plenamente o padrão ouro, pois muitos países permitiam a cunhagem e a circulação conjunta de moedas de ouro e prata, praticando o que ficou conhecido como padrões Bimetálicos, que mesmo sendo um padrão extremamente complexo para se operacionalizar, persistiu durante 2/3 do século XIX, conforme Eichengreen, pelas “externalidade em rede” que ele gerava, as mesmas externalidade que a partir de 1870 empurraram os países para o ouro, numa espécie de reação em cadeia provocada pela segunda fase da Revolução Industrial e pela ascensão da Grã-Bretanha e da Alemanha como as duas principais potências econômicas mundiais, fontes de capitais e, na visão das autoridades monetárias da época, exemplos a serem compartilhados por seus vizinhos e parceiros comerciais e financeiros. Assim, no início do século XX já se havia estabelecido um sistema internacional puramente baseado no ouro.

O modelo de Hume foi ampliado para inserir o papel dos bancos centrais como interventores, sempre que fosse necessário acelerar o processo de ajuste do meio circulante face a uma ausência de grande movimentação de ouro. Geralmente o instrumento utilizado pelos bancos centrais para esta finalidade era a taxa de redesconto. Este mecanismo foi, de fato, amplamente utilizado pelos bancos centrais e teve importância crucial para a manutenção da estabilidade do padrão ouro em sua primeira fase (1870-1914).

As principais características para o funcionamento do padrao-ouro eram os aspectos conjunturais que influenciavam o ritmo global da expansão monetária e a necessidade de ajustamento mútuo das políticas nacionais monetárias e creditícias, dado que eram essenciais a manutenção da taxa de câmbio entre as diferentes moedas nacionais. O processo de ajusto deflacionário não dependia do equilíbrio na conta corrente, pois os movimentos de capital amorteciam os fluxos das transações. Porém, a manutenção cambial dependia do impacto desses ajustes diante do crescimento econômico. Assim, déficits e superávits eram corrigidos por variações não expansão do credito bancário que fossem suficientes para equilibrar as transações de um modo geral.

É importante compreender que, o padrão ouro como sistema foi uma instituição socialmente construída e que caracterizou um momento histórico em que a sociedade dificilmente encontraria meios viáveis de exercer oposição às políticas dos bancos centrais de atribuir prioridade à manutenção da estabilidade da moeda, mesmo que o resultado fosse contração da atividade econômica e aumento do desemprego, uma vez que havia um relativo grau de independência entre as políticas governamentais. As autoridades tomariam todas as medidas necessárias para defender a conversibilidade, atraindo capitais externos inclusive para países de moedas fracas, contribuindo para o financiamento dos déficits nos Balanços de Pagamentos. Ao contrário da visão de analistas que sustentam que o padrão ouro era um sistema automizado, o que hoje se percebe é que o mesmo só sobreviveu durante tanto tempo graças a colaboração entre osbancos centrais e os governos dos países membros do sistema. Havia uma espécie de "solidariedade internacional", pois, uma crise bancária generalizada de grandes proporções poderia por em risco a credibilidade e a manutenção do padrão ouro como sistema monetário.

Assim, a estabilidade do sistema nos países da Europa ocidental entre 1870 e 1913 só foi possível, segundo Eichengreen, graças ao papel exercido pela Grã-Bretanha como pilar financeiro do sistema e também em função da abertura dos mercados e do crescimento do comércio, que atuando em conjunto garantiam o funcionamento do mecanismo de ajuste característico do padrão ouro. Contribuiu também para o relativo sucesso do padrão ouro em sua primeira fase o isolamento político desfrutado pelas autoridades monetárias, as quais podiam se comprometer com a manutenção da conversibilidade em ouro, obtendo a credibilidade do mercado, e também a paz que predominou na Europa neste período, facilitando a cooperação internacional que deu sustentação ao sistema quando sua existência foi ameaçada.

Entretanto, os graves problemas decorrentes da eclosão da Primeira Guerra Mundial minaram por completo a relativa estabilidade do padrão ouro, e a libra esterlina, que antes fora fundamental para o sistema, já não desfrutava da mesma posição privilegiada ao final da guerra, além do que o mundo já observava a ascensão política e econômica dos Estados Unidos.

Padrão-Ouro: DeCecco

Sobre o ponto de vista de Marcello DeCecco, o padrão ouro era um sistema instável, uma vez que a Inglaterra, base do sistema, apresentava ciclos recessivos. Além disso, segundo o autor, o sistema dependia de uma periferia Bimetálica que o circundasse.

Com o desenvolvimento agrícola prejudicado principalmente após a II Revolução Industrial, a Inglaterra dependia do resto do mundo para que pudesse conseguir matéria prima e, para compensar tal fato, exportava produtos manufaturados. Assim, as colônias tiveram importante papel nessa situação; ainda que tivessem uma baixa participação na produção de manufaturas, a Inglaterra foi capaz de aumentar sua participação nas exportações mundiais graças ao monopólio do comercio com suas colônias, especialmente com a Índia, que foi a grande responsável por estabilizar a economia inglesa. A Inglaterra mantinha sua posição de defensora do livre - comércio dando ao mundo a idéia de que os produtos ingleses eram os melhores, além de praticarem política de barreira comercial e tarifaria.

A Índia desempenhou um importante papel no sistema financeiro internacional no período de 1890 – 1914, já que, segundo o sistema internacional de compensação, a Índia era deficitária com o resto do mundo e superavitária com a Inglaterra desse modo, a Inglaterra conseguia alcançar o equilíbrio em suas compensações em conta corrente do balanço de pagamentos.

O sistema monetário indiano fornecia grande massa de manobra para as autoridades monetárias inglesas, servindo de complemento de reservas e mantendo Londres como o centro financeiro. Além do mais, tanto a Índia como a áfrica do Sul eram os principais  fornecedores de ouro que, por sua vez, era absorvido pela Inglaterra. A Índia utilizava o Padrão-prata e inibia o uso do ouro para pagamentos do Tesouro, pois o governo visava a existência de uma moeda forte para honrar os pagamentos dos impostos que deveriam ser feitos em ouro. Deste modo, a Inglaterra conseguia ouro através dos gastos que a Índia contraia com a Inglaterra. O grande gestor desse ouro era o banco da Inglaterra, realizando o Trade-Finance.

Já o crescimento dos Estados Unidos foi responsável por parte dos impactos no sistema monetário internacional. Eles eram desprovidos de um Banco central que regulasse as atividades econômicas. Sua economia de perfil agrícola demandava muitas reservas para o financiamento da produção, como os bancos não conseguiam atender toda a demanda por crédito somente pela emissão de notas, havia uma busca por reservas de ouro, parte dessa demanda por ouro chegava aos Estados Unidos via a adoção de políticas protecionistas. Tais políticas visavam assegurar o desenvolvimento do setor agrícola interno, como os Estados Unidos eram o principal exportador de produtos agrícolas, os demais paises não tinham como evitar o pagamento das altas taxas cobradas pelo governo norte-americano, desse modo, sempre entrava ouro nos cofres americanos. Portanto, nem todo ouro existente nas reservas do país era posto em circulação.

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