segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Dez maiores gestores de investimentos controlam 8,3 PIBs do Brasil




As dez maiores empresas gestoras de investimento do mundo administravam, ao final do ano passado, um total de US$ 17,4 trilhões, montante 20% superior ao PIB dos Estados Unidos, maior economia do mundo, e equivalente a 8,3 vezes o PIB brasileiro.
Segundo um levantamento feito pela consultoria Investment & Pensions Europe (I&PE), os 400 maiores gestores de investimentos do mundo administram recursos equivalentes a US$ 53,6 trilhões, valor 30% maior que a soma dos PIBs das dez maiores economias do mundo.
Apenas a maior gestora de investimentos do mundo, a BlackRock, gerencia sozinha US$ 3,8 trilhões em ativos, soma superior ao PIB da Alemanha, a quarta maior economia do mundo.

Esses dados são uma indicação da influência que decisões tomadas por essas empresas podem ter sobre os mercados financeiros e, em última instância, sobre os países que se veem obrigados a tomar medidas voltadas a acalmar os mercados.
As empresas gestoras são responsáveis por analisar as condições de mercado e tomar decisões de investimentos para os fundos formados por seus clientes ou por outras instituições que usem seus serviços.

Investimentos e especulação

"É quase impossível diferenciar investimentos normais de especulação, mas em situações de grande volatilidade nos mercados, como o atual, qualquer grande movimento pode ser interpretado de uma maneira mais estridente", observa Juan Pablo Pardo-Guerra, professor do Departamento de Sociologia da London School of Economics e especialista em mercados financeiros.
Ele cita o caso do chamado "flash crash" da Bolsa de Nova York, ocorrido no dia 6 de maio do ano passado, quando uma ordem de venda de uma grande quantidade de ações por uma gestora de fundos, em meio às tensões sobre a crise na Grécia, provocou uma reação em cadeia que derrubou o índice Dow Jones em mais de 9% em poucos minutos, apenas para voltar ao seu patamar inicial poucos minutos depois.
Ele observa, no entanto, que as decisões dos grandes gestores de investimentos seguem a lógica do lucro para atender aos interesses de seus clientes, que podem ser milhares ou até milhões de pessoas ou empresas diferentes.
Liam Kennedy, editor das publicações da I&PE, usa um argumento semelhante. "Na maioria dos casos, as empresas gestoras de ativos estão representando os interesses dos investidores", comenta.
"Se um determinado fundo decide não comprar mais títulos da dívida americana, por exemplo, e seus clientes não concordam com essa decisão, eles podem levar seu dinheiro para outro lugar. Essas empresas são muito transparentes no que fazem", diz.

Ganho na crise

O levantamento da I&PE com os 400 maiores gestores de fundo do mundo mostra que entre dezembro de 2009 e dezembro do ano passado essas empresas registraram um aumento de 24% no total de ativos sobre sua administração - mesmo num período de crise, com preocupações crescentes sobre a capacidade de países europeus pagarem suas dívidas e com a capacidade de recuperação da economia mundial após a crise de 2008.
Segundo Kennedy, esse aumento representa tanto um aumento em aplicações feitas por investidores quanto o bom desempenho dos investimentos conseguido pelos gestores.
"É possível lucrar mesmo com os mercados em queda", observa Antonio Mele, professor do departamento de Finanças da London School of Economics.
"Os gestores de fundos não se apoiam nos movimentos do mercado, não dependem da estabilidade. Para eles, volatilidade é vida", diz. "Também é possível lucrar com mercados em queda", observa.
Para Mele, é possível, "em teoria", haver manipulação no mercado, com movimentos especulativos. Ele observa, porém, que se isso ocorresse seria possível identificar a fonte da especulação com facilidade. "É possível identificar de onde vem o problema, quem está comprando ou vendendo em grandes quantidades", diz.

Crise agravada

Em meio à atual crise de confiança na capacidade de países europeus honrarem suas dividas, alguns governos afetados acusam os especuladores de condená-los à crise com suas decisões de investimento.
A fuga dos investidores de títulos das dívidas desses países tem o efeito de elevar os juros pagos pelos governos para rolar seus empréstimos, o que por sua vez aumenta ainda mais o peso do serviço da dívida e eleva os questionamentos sobre a capacidade de o país continuar pagando em dia.
Os especialistas ouvidos pela BBC Brasil afirmam, porém, que a crise não é criada pelo mercado.
"As ações dos grandes atores dos mercados têm um efeito e agravam a crise, por exemplo porque o crédito ficará mais restrito, o que prejudica a economia real, mas o problema foi criado pelos próprios países em primeira instância", observa Liam Kennedy.
"Lógico que eles não poderiam ter previsto a crise, mas essencialmente eles não deveriam ter tomado tanto emprestado se não podiam também manter suas finanças sob controle", afirma.

Dependência

Para Antonio Mele, os governos podem se tornar dependentes dos mercados e se verem obrigados a tomar medidas somente para atender aos interesses e exigências dos grandes investidores, mas essa dependência é de responsabilidade dos próprios governos ao decidirem recorrer aos mercados para financiá-los.
"Não é possível isolar os governos dos mercados. Nessa situação, quanto mais dependentes do mercado, mais forçados serão a atender as suas expectativas", comenta.
Juan Pablo Pardo-Guerra observa que a situação da economia global não mudou de um dia para o outro para justificar os movimentos intensos de baixa e alta nos mercados nos últimos dias, mas a percepção dos investidores sobre o futuro pode ter mudado.
"A economia real nesta semana é a mesma que na semana passada, mas a percepção sobre o futuro mudou. E os mercados se movimentam de acordo com as expectativas dos investidores sobre o futuro, com a confiança", comenta.
Kennedy concorda. "Quando os juros dos títulos aumentam, o mercado está basicamente identificando um problema que vai ocorrer no futuro. Está dizendo que esses governos terão que pagar mais no futuro se quiserem que os investidores emprestem a eles, porque os investidores querem ser compensados pelo risco mais alto", observa.
"Acusar especuladores é algo que os políticos e os governos fazem há muito tempo, mas a crise atual é essencialmente a consequência da má administração do problema pelos líderes e a falta de confiança dos investidores de que vão receber seu dinheiro de volta", argumenta.

Controles

Apesar dos problemas identificados, porém, os analistas consideram que são remotas as possibilidades de que sejam adotadas grandes reformas para controlar o poder dos grandes atores dos mercados de manipulá-los.

"Seria quase impossível controlar isso, porque iria contra o princípio dos mercados livres, ao restringir o direito de comprar e vender livremente", observa Pardo-Guerra. "Nenhum país do mundo estaria disposto a adotar uma medida dessas."


Para ele, existe pouco interesse dos governos em enfrentar os mercados para regulamentá-los. "No ano que vem, há eleições presidenciais nos Estados Unidos, e o presidente Barack Obama precisará do apoio de Wall Street para reelegê-lo", cita ele como exemplo. "Politicamente, os governos não vão correr esse risco."
Em última instância, segundo ele, o principal mecanismo de controle a que essas empresas são submetidas é a prestação de contas que fazem aos seus acionistas e clientes.
Ele observa ainda que os governos mantêm contatos frequentes com os grandes operadores do mercado e também há consultas entre as próprias empresas para evitar turbulências catastróficas.
"Não é do interesse da comunidade financeira enfrentar uma crise imprevisível. Apesar de ser possível ganhar durante a crise, geralmente há mais perdedores do que ganhadores. Os atores do mercado preferem a previsibilidade", diz Pardo-Guerra.

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