quarta-feira, 16 de março de 2011

O outro lado do Trem Bala


O Brasil comemora a consolidação do projeto de um trem de alta velocidade que ligará Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro o orçamento previsto é de US$ 11 bilhões (setores do governo admitem que o investimento possa ser maior que US$ 14 bilhões). Tudo isso por um trecho que terá menos de 500 quilômetros e que depois deverá ser administrado pela iniciativa privada.

Em contra partida, o custo para reativar os trilhos da ferrovia que liga Santos, litoral de São Paulo, e Corumbá, fronteira brasileira com a Bolívia, seria de R$ 80 milhões. Para um trecho de 1.500 quilômetros. Uma conta simples mostra que o preço do quilômetro seria de R$ 53 mil. No caso do trem bala, algo como US$ 22 milhões por quilômetro. Ou seja, pela cotação atual do dólar, 2 quilômetros de trem bala seriam suficientes para reativar 1.500 quilômetros de trilhos tradicionais

Na Argentina, um grupo chamado “Trem para todos” fez as contas e mostrou quão inteligente é focar em ferrovias convencionais: com um investimento de US$ 3,1 bilhões, quase dois bilhões a menos que o que seria investido no trem bala que ligaria Rosário, Córdoba e Buenos Aires, seria possível reativar 18 mil quilômetros de trilhos, sete mil deles para uso de passageiros. A reversão do processo levado a cabo por Carlos Menem, mais do que isso, geraria a reativação de economias locais e possibilitaria a todos viajar por preços acessíveis e a boa velocidade, em torno de 120 quilômetros por hora.


Fora isso, o projeto do trem de alta velocidade desejado pelos Kirchner, faria com que a Argentina ficasse, durante 30 anos, dependente da tecnologia francesa da Alstom, pagando à empresa subsídios que fariam os gastos aumentarem vertiginosamente. Lançada em 2006 por Néstor, a proposta foi arquivada recentemente por Cristina que, pelo secretário de Transporte, Ricardo Jaime, admitiu: “o projeto não encontra que o banque”.

Há estudos que demonstram que na Argentina não é viável o trem bala porque não haveria suficiente demanda de passageiros, além do preço da passagem Rosario-Buenos Aires (350 quilômetros), que seria comparável ao que custa viajar em avião, entre 350 e 500 pesos. O preço de um trem que viaja a 120 km/h poderia sair por 20 pesos, o que beneficiaria apenas a elite e não a população em geral. Fora isso não devemos esquecer da maior capacidade de transportar pessoas de um trem convencional perante um trem de alta velocidade.
O dinheiro utilizado para construir a linha de alta velocidade entre Campinas e Rio de Janeiro seria suficiente para recuperar toda a malha viária brasileira, que a muitos anos está abandonada e em grave processo de degradação. Além de beneficiar milhões de brasileiros com a implementação de trens convencionais a recuperação da malha ferroviária tornaria mais fácil o transporte de carga e escoamento da produção brasileira para ser exportada, diminuindo os custos sobre as mercadorias e, concomitantemente, trazendo uma redução nos fluxos de caminhões nas estradas, que além de ser um meio de transporte de carga mais caro leva a uma degradação mais rápida das estradas.
Frederico Matias Bacic

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